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Este blog é atualizado às segundas, quartas e sextas antes do meio-dia.


Saiba quem é Torero
Sábado do criolo doido

O mais nobre dos esportes

O homem mais rico do mundo queria saber qual era o mais nobre dos esportes e, para isso, chamou três sábios: um da Chi¬na, porque a China é o berço da sabedoria; outro da França, porque a França é o berço da ciência; e outro dos Estados Unidos, que não são o berço de coisa nenhuma mas ganham muitas medalhas nas Olimpíadas.

Logo que os três sábios chegaram à casa do magno magnata, este lhes perguntou: “Senhores, qual o mais nobre dos esportes? Aquele que me convencer receberá um pote de ouro.”

Então o chinês disse: “Honorável senhor, em todos os esportes há nobreza, mas em nenhum outro há mais do que no xadrez. Ele é um jogo de estratégias e inteligên¬cias, onde mais conta o cérebro do que qualquer outra coisa. O xadrez é o esporte do intelecto.” Depois, satisfeito com suas próprias palavras, sentou e tomou seu chá.

Então o francês falou: “Monsieur, nenhum esporte se compara à esgrima. Na esgrima treinamos pontaria e rapidez, defesa e ataque, reflexos e precisão. É um esporte onde todo o corpo é chamado a agir, e por isso é o esporte da habilidade física.” Depois, satisfeito com suas palavras, sentou e tomou seu vinho.

Então o norte-americano rosnou: “Mister, o xadrez e a esgrima são okeis, mas o mais nobre mesmo é o pôquer, que exige dissimulação e farsa, psicologia e trama. Ele não é jogado apenas com o corpo e o cérebro, mas também com a alma. É o esporte do controle emocional.” Depois, satisfeito, sentou e tomou sua Diet Coke.

O homem mais rico do mundo disse que precisava de algum tempo para pensar sobre aqueles profundos arrazoamentos, e, como pensar dá fome, pediu uma pizza pelo ¬telefone.

Quando o entregador chegou com a pizza, o homem mais rico do mundo, só por brincadeira, resolveu lhe perguntar qual era o esporte mais nobre: o xadrez, a esgrima ou o pôquer. O entregador não se fez de rogado e disse: “Esses três esportes são importantes, mas o mais nobre de todos é o futebol de botão.”

Os três sábios caíram na gargalhada, mas o entregador permaneceu imperturbável.

“Vejam, o futebol de botão é uma síntese do conhecimento humano. Ele necessita de movimentos estratégicos como o xadrez; pede pontaria, reflexos e precisão como a esgrima — e requer autodomínio como o pôquer. O futebol de botão, senhores, é o único esporte onde são necessários intelecto, habilidade física e controle emocional. Tudo ao mesmo tempo e em igual proporção.”

Todos ficaram boquiabertos com tais idéias e as aplaudiram com entusiasmo.

O entregador então fez uma partida de botão com cada um dos presentes para celebrar a mais nobre das artes. Ele venceu o chinês por 8 a 0, goleou o francês por 9 a 0 e deu de 10 a 0 no norte-americano. Estranhamente, porém, perdeu de 1 a 0 para o anfitrião; e com um gol contra.

O homem mais rico do mundo ficou tão feliz com a inesperada vitória que não deu apenas um pote de ouro ao entregador de pizza, mas também a mão de sua linda filha e única herdeira.

E a moral dessa fábula esportiva, se é que há alguma, é que é bom ser sábio, mas melhor ainda ser sabido.

*Do livro "Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso".



Escrito por Torero às 16h59
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O último sábado do criolo doido

Como está chegando a Copa, este é o último “Sábado do Criolo Doido”.

 

Fiquei em dúvida sobre qual livro falar nesta despedida. E fiquei em dúvida entre dois livros: “Memórias póstumas de Brás Cubas”, do Machado de Assis, e “Grande sertão: veredas”, do Guimarães Rosa.

 

Hoje em dia pouca gente lê esses livros por prazer. A maioria lê porque o professor manda, por causa do vestibular, coisas assim. Mas a verdade é que são dois livros deliciosos.

 

Memórias Póstumas é uma comédia elegante, onde um defunto conta a sua vida, e aí, como ele é um defunto e já não deve nada para ninguém, pode falar de si mesmo e dos outros sem medo, fazendo um grande raio-x da alma humana.

 

O Machado criou um narrador que, de certa forma, fala em primeira e terceira pessoa ao mesmo tempo.

 

Há capítulos curtíssimos, capítulos só com pontos, sem nenhuma palavra, e um humor fino. A história é simples: uma traição. Mas o humor com que ele revela a psicologia dos personagens é que é o charme do livro.

 

O curioso é que, cada vez que você lê o “Memórias Póstumas...”, ele fica melhor. Li aos 18 e achei bacana, aos 25 achei excelente, aos 35 achei sensacional e daqui a pouco vou lê-lo de novo. Deve estar melhor ainda.

 

Já o “Grande sertão: veredas” tem uma construção de linguagem sensacional, e talvez seja o melhor livro já escrito em português, se é que ele é escrito em português.

 

 E eu digo isso porque o Guimarães Rosa faz os seus personagens falarem numa língua diferente, quase inventada. Nas primeiras páginas você vai achar estranho, mas continue lendo mesmo assim. Depois de umas trinta páginas você se acostuma e aprende aquela língua que tem uma musicalidade inacreditável.

 

Uma coisa engraçada que me aconteceu durante a leitura deste livro é que às vezes eu relia uma página logo depois de lê-la, de tão pasmado que ficava. Ou então me sentia tão contente depois de ler um capítulo que tinha que dar uma volta para espairecer. É um livro impressionante, tanto que eu nunca tive coragem de lê-lo outra vez. Talvez seja inveja. Freud explica.

 

Enfim, acho que ninguém que fala português pode morrer sem ter lido estes dois livros.



Escrito por Torero às 07h27
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Dois livros e um filme

 

 

 

Tristram Shandy

 

Se eu fizesse uma lista dos dez livros que mais me impressionaram na vida, nessa lista entraria, em lugar de destaque “As idéias e as opiniões do cavaleiro Tristram Shandy”.

Ele foi escrito por volta de 1740 pelo Lawrence Sterne, um pastor inglês. Isso pode dar a idéia de que é um livro antigo, com uma linguagem antiquada, uma história que se arrasta, etc... Nada mais errado. É um livro sensacional. Bem humorado e com idéias formais revolucionárias.

Ele conta a história do Tristram Shandy em primeira pessoa, ou seja, é uma falsa autobiografia. O Sterne foi escrevendo este livro aos poucos, lançando um volume a cada dois, três anos. E é uma autobiografia tão diferente que ele só vai nascer ali pelo terceiro volume.

O livro tem mais de 250 anos, mas tem invenções que até hoje são impressionantes. Por exemplo, ele coloca uma folha toda negra para mostrar que está triste, muda o número das páginas e faz breques na narrativa para introduzir pensamentos, coisa que o Machado de Assis vai fazer 150 anos depois.

A tradução, feita pelo José Paulo Paes, é ótima. Para mim, o Tristam Shandy merece estar na mesma estante que a Divina Comédia, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Quixote, Em busca do Tempo Perdido e Grande sertão: veredas.



2001  

 

“2001, uma odisséia no espaço” é um clássico. Mas o que faz de um filme, um clássico? Bom, primeiro, ele tem que ser muito bom. Mas muito bom mesmo. A ponto de ele se tornar um paradigma, um exemplo a ser imitado. E depois ele tem que trazer alguma coisa de novo, porque um clássico, quando aparece, tem sempre algo de vanguarda. E o 2001 tem estas características: é um filme excelente, é um paradigma no gênero e trouxe inovações. Sem falar que tem a maior elipse de tempo da história do cinema, que é quando um dos macacos atira um osso para cima e ele se transforma numa estação espacial. Com esse corte, o Kubrick faz uma passagem de centenas de milhares de anos.

Uma coisa curiosa é que o filme não ficou velho. O que é incrível, porque ele é de 1968, mas pode ser visto hoje em dia sem o menor problema. De certa forma, isso acontece porque ele foi o fundador da estética futurista, e os outros filmes são seus seguidores.

Para ajudar a ver, a entender e para aproveitar melhor o filme, tem um livrinho muito bom do crítico Amir Labaki só sobre o 2001. Foi editado naquela coleção Folha Explica e custa só 14 reais.

Se você gosta de ficção científica, ou de cinema, 2001 é um filme obrigatório.

 

 

 

Galvez, o imperador do Acre

 

“Galvez, o imperador do Acre” é um romance histórico que fez muito sucesso ali em meados dos anos setenta. Muito mesmo. Vendeu mais de meio milhão de exemplares. E foi um sucesso merecido. É um livraço! Engraçado e inteligente, com um ritmo rápido, daqueles que você vai virando as páginas a duzentos por hora. Já virou peça, o Hector Babenco já quis filmar a história e o livro foi um sucesso internacional.

Ele tem um formato de narrativa próximo do folhetim, mas um folhetim meio modernista, com capítulos muito curtos e muita ação. Mas, além de todo esse humor e toda essa ação, o leitor ganha de brinde uma certa reflexão sobre a América Latina.

O livro foi escrito pelo Márcio Souza e conta a história do Galvez, que é um pícaro, uma espécie de malandro, que vivia na Amazônia do fim do século dezenove, no auge do ciclo da borracha. Esse Galvez é um ninguém, um pobre-coitado, mas, por conta de algumas sortes, alguns azares e de alguma esperteza, acaba como imperador do Acre.

Este livro vai fazer trinta anos, mas envelheceu muito bem. E envelhecer bem não é difícil só para as atrizes. Para os livros, também não é fácil. Mas  “Galvez, o imperador do Acre” conseguiu.

 



Escrito por Torero às 07h27
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Convite

Nesta segunda-feira, a partir das 19h30, em São Paulo, no Bar São Cristóvão (rua Aspicuelta, 533, Vila Madalena), será lançado o livro "11 histórias de futebol", composto por onze histórias escritas por onze sujeitos diferentes, entre eles, eu. Quem puder, apareça (não pelo livro, claro, mas porque a caipirinha do São Cristóvão é ótima).



Escrito por Torero às 07h27
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Um livro, um livrinho e um livrão

 

O Anatomista

No futebol, Brasil e Argentina são rivais tremendos. E na literatura não é muito diferente. Eles têm Borges e Maradona, a gente tem Machado de Assis e Pelé, eles têm Di Stéfano e Cortázar, a gente tem Garrincha e Guimarães Rosa. A diferença da literatura para o futebol é que, na literatura, todo mundo sai ganhando. Quanto mais escritores bons, melhor, inclusive para nós, brasileiros.

E um ótimo escritor argentino foi publicado agora no Brasil. O nome dele é Federico Andahazi e ele escreveu “O Anatomista”. É a história de um médico do Renascimento, o Mateo Colón, que descobre uma parte muito importante da anatomia feminina: o misterioso clitóris (que, aliás, para muitos continua um mistério até hoje).

O problema é que Mateo Colón é um abade, um religioso. E aí, é claro, isso vai provocar alguns problemas para ele, inclusive um processo pela inquisição. Para não enganar o leitor, já aviso que esse não é um romance erótico, apesar de ter uma ou outra cena de sexo.

É um livro com trama, com bons personagens, que mistura prostitutas e papas. O Anatomista foi um grande sucesso nos países de fala espanhola e foi editado aqui pela LP&M, naquela coleção de bolso, e custa só 15 reais. O preço de um ingresso de futebol.

 

 

PS: Beijei

Ninguém fala de livros para adolescentes ou pré-adolescentes. Ninguém. Se você tem entre 11 e 16 anos, a coisa mais difícil vai ser encontrar a crítica de um livro para você. E não é porque a turma dessa idade não goste de ler. Taí o Harry Porter, o maior sucesso editorial do mundo, que prova justamente o contrário. A verdade é que os críticos não gostam de ler este tipo de livro, e aí não escrevem sobre eles.

O adolescente é faminto por livros, mas, como não existe uma crítica voltada para eles, acabam lendo só os paradidáticos indicados pela escola, o que é uma pena. É como se você só pudesse ver TV Educativa.

Por isso hoje eu vou indicar um livro para essa turma. Ou melhor, para as meninas dessa turma. Ele se chama “PS: Beijei” e foi escrito por duas pessoas: Mariana Veríssimo e Adriana Falcão. E ele foi escrito por duas pessoas porque o formato dele pedia isso: é que o livro tem o formato de uma troca de emails entre duas meninas.

A trama, onde tem um tanto de romance, é bacana e o final é cheio de surpresas. Sem falar que mostra bem como é o raciocínio adolescente feminino, o que em si já é um grande feito.

Se você tem entre 12 e 16 anos, o “PS: Beijei” é um bom jeito de você gastar sua mesada.

 

 

Viva o povo brasileiro

Caros blogleitores, eu vos pergunto: Que livro será um clássico daqui a cinqüenta anos? E repergunto: Que livro vai ser obrigatório nas escolas de amanhã? O meu palpite é “Viva o Povo Brasileiro”, do João Ubaldo Ribeiro.

Ainda é um livro novo, só com vinte anos, mas é um daqueles livros fortes, cheio de invenções, e ainda por cima com uma excelente história.

É um livro grande, com quase setecentas páginas, mas o esforço vale a pena. Tanto que no final você vai achar que ele devia ser ainda maior.

O livro conta a história de várias gerações de brasileiros, e tem algumas páginas sensacionais, como uma guerra que o João Ubaldo conta através dos orixás, ou o assassinato de um senhor de engenho que é morto por seus escravos de um modo muito diferente: eles provocam uma tremenda prisão de ventre no coitado.

A primeira vez que eu tentei ler o livro, desisti ali na página vinte. Mas na segunda vez eu passei da vinte e aí fui até o fim. E tem livro que é assim mesmo: você tem que pagar uma espécie de pedágio para poder entrar no livro. O “Grande sertão: veredas” é assim, o “Em busca do tempo perdido” é assim, e até “O nome da Rosa” é assim.

Eu garanto que, no caso de “Viva o povo brasileiro”, esse pedágio é muito barato e vale a pena.



Escrito por Torero às 07h07
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Dois filmes e um livro

 

O último jantar

“O último jantar” não foi um grande sucesso no Brasil. Pelo contrário, foi um pequeno fracasso. Mas que eu achei um filme excelente, com um ótimo roteiro, feito com um humor negro e inteligente. Ele pode ser encontrado em qualquer boa locadora, mas só em VHS. De qualquer forma, é um desses filmes que vale a pena garimpar.

Foi dirigido pela Stacy Title e fez muito sucesso no Sundance, aquele festival de cinema independente promovido pelo Robert Redford. “O último jantar” tem esse nome porque conta a história de um grupo de amigos que convida pessoas para jantar e acaba matando estes convidados. Mas estes convidados têm uma coisa em comum. São todos extremistas.

O filme tem um final surpreendente, mas, é claro, eu não vou contar nada para não estragar a surpresa. No elenco, o destaque é a Cameron Diaz, que hoje é uma pop star mas que em 1996 ainda não era conhecida.

Enfim, “O último jantar” é um filme para aquela turma que gosta de comédias inteligentes, aquela turma que acha que o cinema pode ser uma coisa divertida, mas não necessariamente boba. Para aquela turma que acha que um filme não é só uma coisa que a gente vê enquanto come pipoca.

 

Matadouro cinco

Saiu por aquela coleção de livros de bolso da editora LP&M, um dos melhores livros que eu já li. Chama-se “Matadouro Cinco” e foi escrito pelo Kurt Vonnegut Junior. É um livraço! Inteligente, com um humor sutil, com uma estrutura narrativa muito interessante, onde a gente avança e recua no tempo, mas sem se perder. E o livro custa só quinze reais, quer dizer, o mesmo preço de um cineminha. Só que com várias vantagens. Um filme só te dá duas horas de diversão. Um livro dura muito mais. E também fica na nossa memória por mais tempo. Ainda mais nesse caso, porque Matadouro Cinco é um daqueles livros que se transformam em clássicos porque inventam uma nova forma de contar uma história. E esta nova forma tem duas características principais: o avanço e o recuo no tempo, e as micro-histórias que o autor vai espalhando pelo livro.

De certa forma, a estrutura do livro parece uma árvore de natal, com uma história principal, que é a árvore, mas com várias historiazinhas penduradas, que são as bolas de natal.

O Vonnegut faz isso nos seus outros livros, como Hócus-Pócus e Cama de Gato, que também são muito bons. Os livros dele estão esgotados há muito tempo. Tomara que a LP&M reedite os outros. Mas você já pode ler seu livro mais importante.

 

Bob Roberts

Tem dois tipos de filmes: ficção e documentário. Certo? Errado! Existe também o falso documentário. Ou seja, um filme que tem formato de documentário mas, na verdade, é uma ficção. É um tipo de filme que eu gosto muito, porque mostra como se pode manipular a verdade.

Nas locadoras você encontra poucos falsos documentários. Um deles é Bob Roberts. O filme é de1992, e o Tim Robbins é o diretor e o ator principal. Ele faz o papel de um cantor folk, uma espécie de Daniel, que está disputando a eleição para presidente dos Estados Unidos. E o filme é um documentário sobre a campanha desse tal Bob Roberts.

Os filmes políticos têm sempre o risco de serem chatos, de ficarem abaixo do que a gente vê no noticiário, ainda mais em tempos de Zé Dirceu e Roberto Jefferson. Mas este filme é uma comédia ácida, muito inteligente e bem dirigida, apesar de ser o primeiro filme do Tim Robbins como diretor.

O personagem Bob Roberts nasceu num esquete do programa "Saturday Night Live", em oitenta e seis. Outra coisa curiosa é que, no filme, o Gore Vidal, um dos maiores romancistas americanos vivos, faz uma ponta como ator. Enfim, se você quer ver um falso documentário de verdade, veja o Bob Roberts. Aí você vai ver que a verdade é que não existe verdade, não é verdade?



Escrito por Torero às 07h04
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As duas melhores coisas do mundo - 1

Numa erudita tertúlia travada com alguns filósofos no botequim da esquina de casa, chegamos à conclusão de que as duas melhores coisas do mundo são futebol e comida (a TV ficou em terceiro, e o sexo, no quarto, que, pensando bem, é o seu lugar).

Foi então que Nietzsche (o português dono do bar, que recebeu o apelido pelo seu vasto bigode) disse que o melhor mesmo era juntar os dois e comer no estádio. Nietzsche recebeu uma salva de palmas, e eu, tendo como desculpa a abertura do Brasileiro, me lancei na incumbência de fazer uma reportagem sobre comida nos estádios pelo país.

O primeiro que visitei foi o Arruda, no Recife, casa do Santa Cruz. Comecei com o pé direito, porque ali há uma grande variedade de acepipes, alguns muito bons. Se o time é de Série B (que também começa hoje), o cardápio é de Série A. O Arruda é uma espécie de Fasano dos estádios.

Antes de entrar no "Gigante da rua das moças" já se pode forrar o estômago nas barraquinhas. Aliás, a qualidade e o capricho mudam muito de uma para outra.

O salsichão em espiral é bem interessante (R$ 0,50), assim como os bons espetinhos de carne entremeados de cebola (R$ 1 a R$ 1,50) e os espetos mistos (vaca, frango e linguiça, R$ 1,50). Para os vegetarianos, há uma boa salada de fruta e, é claro, o tradicional queijo coalho (R$ 1 e R$ 1,50).

Já os mais corajosos podem enfrentar as asinhas de frango (um tanto desconfiáveis, R$ 0,25) e, principalmente, as largas fatias de fígado de boi (R$ 0,50). Eu, confesso, refuguei. Mas havia uma boa aceitação entre os locais.

No estádio, a variedade continua. Só de amendoim há três tipos: sem casca, com casca e cozido (todos a R$ 0,50 ou 3 por R$ 1). Já o saquinho com ovos de codorna sai por R$ 1. Os sorvetes (marca Só Mel, R$ 0,25) também possuem sabores diferentes dos do Sul, como graviola e cajá.

Os frequentadores dizem que há também roletes de cana (vendidos em tabuleiros, enfiados em palitinhos), mas são mais encontrados nos jogos vespertinos. Para meu azar, fui ao Arruda à noite.

Na região das sociais há uma certa sofisticação. Ambulantes oferecem doses de Johnie Walker e Teacher's por R$ 2. Há espetos de coração (raros na arquibancada), e o coalho vem com orégano.

Para os que conseguirem controlar a fome, na saída os preços em geral caem pela metade. E ainda mais em caso de derrota. Segundo os ambulantes do Arruda (que pagam R$ 15 para entrar no estádio), a vitória dá fome.

(continua no post abaixo)



Escrito por Torero às 07h18
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As duas melhores coisas do mundo - 2


Sem peixe


Homenagem prestada, falemos agora da Série A. Começando pelo começo, por quem já começou no campeonato: o Santos, que ontem pegaria o Botafogo em casa.

Na Vila Belmiro há um comércio tradicional nas ruas que cercam o campo: pipoca, sorvete, espetinhos e dogões. De diferente, uma salsicha com queijo. As barracas têm qualidades muito diferentes entre si e é bom dar uma espiada na higiene dos ambulantes.

Dentro da Vila, há boas opções. O sanduíche de carne assada da lanchonete (R$ 2,50) é bem respeitável. O molho é caprichado, com bastante cebola e alho. Outra opção é a linguiça (em três versões: com alho, apimentada e com queijo, R$ 2,50). Curiosamente não há peixe no estádio do Peixe.

Quem foi ontem ao Morumbi, para ver o São Paulo estrear contra o Paysandu, pôde degustar as calabresas das barracas ao redor do estádio. Alguns vendedores dizem trazê-las de Bragança. Verdade ou não, meu estômago diz que elas são bem aceitáveis.

em São Januário, que ontem viu Vasco x Figueirense, as coisas não são tão saborosas. O Rio tem uma grande e merecida fama de possuir ótimos botequins, onde são encontradas obras de arte, como o sanduíche de pernil e abacaxi do Cervantes ou o bolinho de aipim do Bracarense. Porém a tradição de bons petiscos não chegou ao estádio do Vasco.

Há algumas lanchonetes e nenhum prato diferente. O hambúrguer (R$ 0,50) é comível, mas sua carne é muito fina (no mau sentido). O joelho italiano (massa com presunto e queijo, R$ 1) é sólido demais, e os salgadinhos (coxinha, salsicha empanada, bolinho de carne, R$ 1) são medianos.

Podem-se encontrar alguns ambulantes que montam pequenas churrasqueiras e vendem salsichão e espetinho. Isso é proibido, mas um dos vendedores explicou sua presença: "Se tiver conhecimento, não tem problema".

Há também alguns produtos industrializados, mas as marcas são pouco conhecidas, como o biscoito de polvilho Sortilège (R$ 1), o guaraná Frutline (R$ 2) e um sorvete sem identificação, que os ambulantes chamam de Dragão Chinês (R$ 0,50, muito ruim). Para as partidas monótonas pode-se recorrer aos vendedores de café que ficam zanzando pelas arquibancadas com uma garrafa térmica (R$ 0,50). Sem Romário, eles devem ter mais trabalho neste ano.
No Mineirão, mesmo fora de campo já são encontradas algumas coisas curiosas. O cachorro-quente (R$ 1), por exemplo, usa aquela salsicha suspeita de sempre e aquela gama de molhos (mostarda, catchup, maionese, vinagrete, batata palha,...).

Mas não pára por aí. No rotidógui mineiro você ainda pode colocar frutas cristalizadas. É isso mesmo, aquelas coisas que vêm nos panetones. Não cheguei a experimentar, mas fiquei com a impressão de que as passas são um estranho no ninho. Mais ou menos como quando o Roque Júnior decide subir para o ataque: pode até dar certo, mas é perigoso.

(continua no post abaixo)



Escrito por Torero às 07h17
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As duas melhores coisas do mundo - 3


Com jiló

 

Há também os espetinhos tradicionais (R$ 1,50). Uma variação interessante é o espetinho de frango enrolado no toucinho, onde um ajuda o outro e cada um sozinho não merece destaque. Uma espécie de Washington e Assis.

 

Nesta categoria, o melhor foi o espetinho-no-prato-com-cebola-e-jiló (R$ 2). O jiló sozinho é sem graça como um centroavante de um time sem meias, mas, com a carne e a cebola, faz uma bela triangulação. Na área dos doces, o destaque é uma farta pamonha com queijo, grande como um tijolo. E com o mesmo gosto.

Porém o grande sucesso culinário do Mineirão está dentro dos muros. É uma iguaria servida desde a inauguração do estádio, 30 e tantos anos atrás: o feijão tropeiro. Trata-se de uma verdadeira refeição e custa R$ 3,50.

O tropeiro vem numa embalagem de alumínio. O problema é que, para evitar assassinatos, não é servido com garfo e faca, mas apenas com uma colher de plástico. Por sorte, ou azar, o lombo é tão diáfano que quase sempre se consegue cortá-lo com a colher, a não ser onde a nervura é mais forte. Aí o jeito é tascar-lhe os dentes como um homem das cavernas.

O tropeiro vende cerca de 50% a mais nos jogos noturnos. Nas partidas vesperais, como a de hoje, do Atlético-MG contra o Corinthians, a torcida já vai almoçada e aí o sucesso é a cerveja.

Segundo Júlio Coelho, dono de 17 bares no estádio, em grandes jogos são vendidas mais de 10 mil quentinhas. Elas vêm com arroz (farto), feijão (decente), couve (seca), torresmo (bom), lombo (quase transparente), ovo (gema dura, mas salgadinho) e farofa.

A refeição mata a fome e é o grande sucesso do Mineirão, depois de Tostão e Reinaldo, é claro.

Quanto a petiscos, são decepcionantes. Como se trata de um estádio público, a Vigilância Sanitária só permite a venda de produtos industrializados, ou seja, batatas Chips, sorvetes Yopa...

Assim, acabaram com os "toreros" (vendedores ilegais que entram "na tora", "na marra"). Isso garante a saúde do torcedor, mas faz com que ele perca amendoinzinhos e sua família de pitéus.

Não sei porquê, mas o fim dos toreros me dá um frio na barriga.

 

(Publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 11/08/2002)

 



Escrito por Torero às 07h16
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999

19 de novembro de 1969. Maracanã. Pelé, autor de 999 gols, prepara-se para bater o pênalti contra o Vasco da Gama.

Ele ajeita a bola na marca de cal. Antes de bater, olha para as arquibancadas. Centenas de milhares de pessoas querem compartilhar aquele momento histórico. Ele também olha para Andrada, o goleiro magricela que, para tornar ainda maior a alegria de Pelé, é argentino.

Pelé começa a correr. Escolhe o canto direito e bate colocado à meia altura. Ainda cego pelos inúmeros flashes das máquinas fotográficas, não consegue entender direito o que se passa, mas a reverberação de um comprido “Uuuh!” chega aos seus ouvidos. Ele esfrega os olhos e vê Andrada com a bola apertada contra o peito. Não tinha sido daquela vez.

Pelé ficou triste e desmotivado; até pediu para ser substituído minutos mais tarde. No jogo seguinte, contra o São Paulo, esteve outra vez perto da glória, mas por duas vezes mandou a bola de encontro às traves.

Vieram outras chances. No empate contra o Palmeiras, o jovem goleiro Leão rebateu a bola à frente de seus pés; ele, porém, mandou-a para fora. Alguns dias depois deu dois chapéus em Ditão, mas acabou chutando em cima de Ado. Pena! Ele adorava vencer o Corinthians...

Pelé foi ficando nervoso e um dia, sem que ninguém visse, começou a beber. Primeiro foi uma cerveja, depois uma caipirinha e no fim acabou experimentando aguarrás. O efeito disso foi que começou a chegar atrasado aos treinos, caiu de rendimento e, diante dos clamores da torcida, perdeu a posição para Brecha.

Isso foi fatal para seus planos de jogar a Copa de 1970. Zagallo, receoso, não o convocou para a equipe tricampeã. Tostão jogou um pouco mais recuado no meio-campo e Dario foi o centroavante.

Nos anos seguintes, na reserva, Pelé não conseguiu fazer seu milésimo gol. Decidiu então despedir-se do futebol. As glórias passadas ainda estavam na memória de todos, e a Vila Belmiro lotou naquela tarde de 1972 para ver o seu adeus contra um combinado de craques. Quem sabe se na partida derradeira ele não chegaria ao milésimo gol.

Pelé estava infernal. Num lance brilhante, a Vila Belmiro quase veio abaixo. Pôs a bola no meio das pernas de Piazza, deu o drible da vaca em Luís Pereira, deixou Figueroa no chão e chutou colocado no ângulo. Ele já ia dar um soco no ar quando viu a bola sendo espalmada para escanteio pelo goleiro. O nome dele era Andrada.

Daquele dia em diante, ninguém mais o viu. Pelé deixou a barba crescer e ficou conhecido pelos habitantes de Três Corações como um mendigo esquisito, que vivia chutando pedrinhas como se estivesse cobrando um pênalti. E nunca acertava.

“Acorda, acorda!”

“Que foi, Assíria?”

“Você está tendo um pesadelo e não pára de me chutar!”

“Sonhei que perdi o pênalti contra o Andrada, entende?”

“Que bobagem... Dorme, Edson.”

Mas ele não consegue mais dormir e passa a noite em claro. Enquanto isso, em algum lugar, Andrada tem o mesmo sonho de Pelé. E sorri.

 

(Publicado originalmente em "Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso")



Escrito por Torero às 07h48
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Um livro para ateus, outro para homens e um último para mulheres

A Bíblia

 

A Bíblia é um livro excelente! E eu não estou falando em relação à fé. É que a Bíblia pode ser lida como literatura. Tanto o Velho como o Novo Testamento.

 

O Novo Testamento traz uma história perfeita, excelente, em quatro versões, o que é uma coisa bem moderna.

 

Mas acho que literariamente o Velho Testamento é mais rico. Ali você vai encontrar poesias eróticas, dramas familiares, contos fantásticos, guerras sangrentas, heróis cabeludos, dilúvios que quase exterminam a humanidade..., tem de tudo.

 

O que o James Joyce fez em Ulisses, aquele encadeamento de estilos, onde cada capítulo é escrito de uma forma diferente, a Bíblia já tinha feito milhares de anos antes. Mas, como ninguém lê a Bíblia como literatura, a gente acaba não valorizando esse texto, que é divino, mesmo para os ateus, como eu.

 

Malu de bicicleta

 

Se você é leitora e não leitor, por favor, pare de ler aqui. Obrigado. É que o livro de hoje é um livro sobre homens. Um livro que revela muito da psicologia masculina. Eu me senti até um tanto traído quando li esse livro, porque pensei: “Pô, essas coisas são um segredo nosso!, a gente não pode deixar as mulheres saberem que a gente pensa desse jeito!”. "Malu..." conta a história de um galinha, de um conquistador, de um cara que traçava todas as mulheres. Mas aí ele se apaixona, se casa, e começa a desconfiar que a mulher o trai. É uma trama simples mas que prende o leitor, que fica querendo saber se o personagem principal está sendo traído ou não.

 

Mas o mais interessante de “Malu de bicicleta” não são as peripécias sexuais. É a investigação psicológica feita pelo Marcelo Rubens Paiva, que revela como realmente pensam os homens. E isso não é uma coisa muito bonita. Espero que as mulheres não leiam o livro. Assim elas vão continuar com uma boa imagem da gente. Ainda bem que eu pedi para elas não lerem este texto.

 

A mulher que escreveu a Bíblia

 

Para manter o equilíbrio dessa coluna, para que não me chamem de sexista, de machão antiquado e de outras verdades, vou falar agora de um livro sobre mulheres. Ele foi escrito pelo Moacyr Scliar, que é um dos principais nomes da literatura brasileira, um escritor com mais de cinqüenta livros.

 

O Scliar conta a história de uma mulher feia, mas muito feia mesmo, que foi parar no harém de Salomão, que, para quem não sabe, tinha setecentas esposas e trezentas concubinas. E essa mulher era feia mas sabia escrever, o que era muito raro na época, de modo que ela acaba recebendo a missão de escrever a história do povo judeu.

 

O livro tem uma escrita muito ágil, muito saborosa, e o leitor vai escorregando pelas páginas sem perceber. É daqueles livros que, de repente, você olha e diz: Nossa, já tô na página 122!” E isso quase sempre é um bom sinal. Mas o que eu gostei mais foi da revelação da psicologia feminina. O livro parece mesmo ter sido escrito por uma mulher. E entender o pensamento das mulheres não é fácil, para nós, homens. Não mesmo!



Escrito por Torero às 07h42
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E o meu voto para volante vai para...

Galeano.

 

Isso mesmo, Galeano.

 

É fácil exaltar os feitos de um Pelé, rei dos reis, autor de mais de mil gols.

É fácil cantar a glória de um Garrincha, gênio do imprevisível, poeta do drible.

 

É fácil cantar a arte de Rivelino, a inteligência de Didi, a classe de Falcão, o talento de Sócrates, a genialidade de Zico, a sagacidade de Romário, o passo e o compasso de Ademir da Guia.

Já tecer louvores a Galeano e aos galeanos não é assim tão simples.

Muitos dos belos gols dos gênios acima nasceram dos passes de um Tião, de um Caçapava, de um Miron, de um Mococa, de um Chicão, de um Galeano. Mas eu lhes pergunto: "Alguém se lembra deles?""

E eu lhes respondo: "Ninguém."

A história louva os arquitetos, elogia os decoradores, mas esquece os pedreiros.

E quem é o pedreiro do futebol?

É o volante. É o Galeano. São os galeanos.

Galeano é o símbolo daqueles jogadores de quem ninguém gosta, daqueles que vaiamos, daqueles a quem chamamos de burro quando erram um passe, daqueles de quem dizemos que não é digno de vestir a camisa do nosso clube.

Mas Galeano, como a Amélia do samba, têm muitas virtudes.

Galeano é um herói anônimo e solidário, que joga pensando no time. Geralmente só e sem cobertura, é aquele que leva dribles humilhantes, que cai sentado, que dá carrinhos, que agarra os velozes atacantes pelos pés.

Também é aquele que tem que fazer faltas atrás de faltas e que, por isso, passa a vida a contar cartões amarelos, expulsões, multas e julgamentos.

Pobre carregador de piano que substitui o lateral, o beque-central, o quarto-zagueiro, o meia de armação e às vezes até atreve-se a fazer gols.


Os galeanos são vários e podem se chamar Amaral, Claudiomiro, Leandro Ávila, Dunga, Marcos Basílio, Reidner, Gilmar, Edmilson, Capitão, Simão ou até Galeano.

Nobre Galeano, tu, como os bombeiros, como os doadores de sangue, como os anjos da guarda, tens a sina de só ser lembrado na hora da dificuldade e depois esquecido. Jamais és o eleito da torcida.

Mas, pelo menos hoje, meu voto é teu.

 

(PS: Votação encerrada)



Escrito por Torero às 05h45
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A maior das artes - I

                                                           I

Muito já se debateu sobre qual seria a mais importante das artes. E já se ouviu todo o tipo de resposta:

 

*para os que amam a música, não há outra atividade mais harmoniosa;

 

*os poetas não hesitam em colocar sua musa nas máximas alturas do Olimpo;

 

*os pintores mal reconhecem as outras artes como merecedoras deste nome;

 

*os escultores dizem que os pintores são apenas uns pretensiosos bidimensionais;

 

*os atores gargalham e bradam que nenhuma arte supera a arte dramática;        

 

*os arquitetos professam que nenhuma arte faz obras mais úteis que a sua;

 

*os cineastas afirmam que a sua é a melhor por conter todas as outras;

 

*e os bailarinos riem e dão saltinhos presunçosos quando perguntados sobre esta questão.

 

Mas nenhum deles deve ser levado totalmente a sério. Advogam em causa própria, tentando erguer a importância de suas artes à custa de sofismas. Porém, não se deve criticá-los muito duramente. São apenas filhos vomitando elogios às próprias mães, o que raramente é justo mas sempre é compreensível. Para fugir destas parcialidades, precisamos examinar a questão com isenção e criticidade, fazendo um justo arrazoamento para saber qual das artes merece o lugar mais alto no panteão.

 

Talvez, antes disso, devamos definir o que seja a arte. Recorramos ao velho Aurélio, que diz ser a arte uma "capacidade que tem o homem de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria", ou então: "toda atividade que supõe a criação de estados de espírito de caráter estético carregados de vivência pessoal e profunda."

 

Ora, dito isto, não vejo como negar a indiscutível verdade: a maior de todas as artes, a mais importante, a mais valiosa, não é outra que não a velha e nobre arte culinária.

 

(continua no post abaixo)   



Escrito por Torero às 06h42
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A maior das artes - II

                                                             II

Os argumentos a seu favor são tantos que mal consigo colocá-los em ordem. Comecemos por tentar reconhecer a culinária como merecedora da definição de arte do Aurélio. Eu vos pergunto: Não é o ato de cozinhar uma capacidade que tem o homem de pôr em prática uma idéia, valendo-se de dominar a matéria? E mais: A comida não nos provoca estados de espírito carregados de vivência pessoal e profunda? Fizéssemos esta pergunta a Proust e receberíamos um tratado como resposta.

 

Mas a culinária não é apenas uma arte. É a maior e mais antiga delas. Provavelmente nasceu quando algum nosso antepassado, enquanto brincava com seu peludo rabo, descobriu que a banana ficava melhor sem a casca.

 

Acima de tudo, as obras culinárias são as mais amadas pelos seus artesãos. Tanto que eles literalmente a consomem. Não se vê pintores comendo quadros nem bailarinas engolindo suas sapatilhas de ponta, mas não há cozinheiro que não experimente sua própria produção. Mais que provar, muitos deles a absorvem totalmente e a criatura passa a fazer parte do seu criador. É uma simbiose perfeita. O inventor dá a vida à sua obra, que por sua vez mantém seu Deus vivo.

 

Quanto aos efeitos, não há arte mais recompensadora. Basta ficar à porta de uma boa cantina para verificar quão benéficos são seus resultados. Os veneradores desta arte saem dos seus templos, os restaurantes, sempre sorridentes, de bom humor e com as faces rosadas. Por outro lado, nas portas dos teatros e dos cinemas é fácil vermos os espectadores com os olhos marejados e feições desfeitas, havendo até mesmo os que saem chorando como viúvas sem herança.

 

E, se a culinária é a mais nobre, é também a mais útil das artes. O homem pode sobreviver sem valsas, versos, quadros, filmes e danças. Até mesmo sem teto.  Mas, apesar de poder passar toda sua vida sem estas artes, ele não sobreviveria mais do que alguns dias sem o alimento. A culinária não é só a mais bela das artes, é também a mais necessária.



Escrito por Torero às 06h41
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Bumbum, baticundum, prugurundum...

Depois de tantos dias ouvindo batuques, cantarolando sambas e vendo seios de silicone, acho que fiquei com a imaginação condicionada pelo que chamam de espírito de Carnaval. Pelo menos é a explicação que encontro para o sonho que tive ontem à noite:

Era uma grande escola, e ela vinha entrando pelo sambódromo. Podia-se ouvir os primeiros versos do samba-enredo:

"S'embora, nega, vem comigo
Brasil é bola, Brasil é folia!
Sacode esse umbigo,
Nessa noite de alegria."


Depois disso, avistei o que parecia ser uma comissão de frente. Lá vinham Garrincha, Didi, Leônidas, Pelé e Canhoteiro. Seus uniformes eram dourados e em vez de tirar o chapéu para o público, davam chapéus em si mesmos.

Apareceu então o carro abre-alas: um colossal par de dentes frontais. Em cima deles vinham os ronaldinhos acompanhados das ronaldinhas. Por uns ou por outras, o povo delirou.

E o samba-enredo continuava:
"Iansã falou,
Oxum me disse:
Arte maior
Na terra não existe."

Atrás deles, a certa distância, apareceram a Milene, com uma bandeira na mão, e Edílson, que fazia evoluções ao seu redor. Acho que eram mestre-sala e porta-bandeira. Os dois faziam embaixadas e, às vezes, trocavam bolas para delírio do público. Milene chegou a fazer uma série de dez lelês com a barriga de grávida.

Então veio a Ala Luxemburgo. Era formada por dezenas de técnicos, todos vestindo uma curiosa fantasia: ternos italianos. Como adereços, gravatas Hermès.

Logo atrás, vinha uma ala de passistas. Reconheci Marcelinho, Ricardinho, Alex, Juninho, Ramon, Raí, Valdo e uma série de outros excelentes passadores. E o puxador de samba, Serginho Chulapa, mandava ver:


"Vou realizar, ô, ô, ô,
Meu sonho menino,
Ser pentacampeão,
Jogando o fino."

Telê Santana, o diretor de harmonia, apressava a Ala das Baianas: com grande garra e, como diria Leci Brandão, muita dignidade, Baiano, Fernando Baiano, Gil Baiano e Júnior Baiano erguiam as mãos para o alto e davam giros graciosos com suas saias-balão!

Eles precederam um carro que trazia Edmundo, destaque da Ala dos Animais. Ele usava uma roupa de pele de tigre e dançava sobre o teto de uma jaula que continha onças, leopardos e linces. No chão, Falcão e Leão faziam acrobacias com seus pandeiros.

Logo em seguida veio a Ala dos Enceradeiras. Lá vi Beto, Robert, Sérgio Manoel, Carlos Miguel e, destaque, Zinho. A coreografia os fazia rodar sem parar. De vez em quando um ficava tonto e caía, mas logo se levantava e continuava seus giros com garbo leveza.
Então veio a bateria, onde figuravam Argel, Márcio Rossini, Moisés, Zé Eduardo, Odvan e outros eméritos batedores. Só que, em vez de baquetas, usavam tíbias para bater em seus tambores.

O desfile estava sendo perfeito, mas então ocorreu um acidente: o último carro alegórico começou a pegar fogo. Era uma cartola negra e brilhante. No seu topo via-se a fina flor da cartolagem nacional. Desesperados, eles se abraçavam uns aos outros e rezavam enquanto eram carbonizados.

E Chulapa, rindo, cantava:
"Esse país,
É o país da bola,
O que estraga,
É o cartola."

E quando passou o carro flamejante, o público, de pé, aplaudiu.

Publicado na Folha de S. Paulo em 7/3/2000.



Escrito por Torero às 04h55
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