Eis um belo lugar para se viver, pensei quando desembarcamos em Paris.
Acho que ele concordava comigo, mas, talvez por causa de sua idade, trocou uma palavra da frase e disse: — Eis um belo lugar para se morrer.
O seu nome era Feijão. Dividíamos há dez anos um quarto no Méier e cada um conhecia a fundo as manias e rotinas do outro. Ele era o meu melhor amigo. Por ser um pouco mais jovem, cabia a mim acordá-lo, incentivá-lo a caminhar e agüentar suas crises de mau humor:
— Ah, Marcos Roberto — ele dizia. — O que seria de mim sem você?
Eu apenas inclinava a cabeça, assim como quem diz: — Ora, deixe pra lá... — Nunca soube reagir a elogios.
Feijão tinha já cem anos e não contava mais com sua companheira Noemi. Mas estava recuperado. Tanto que logo que chegamos a Paris ele procurou saber o destino de Coco, uma antiga namorada. Descobriu que ela agora morava em Sevilha, onde estava casada com um barbeiro chamado Piolho. Meu amigo pôs o telefone no gancho e suspirou com tristeza. Ele nunca soube viver sem mulheres.
Mas, afinal, ele não estava ali para tratar de amores, e sim para ver o Brasil pentacampeão. Uma das poucas pessoas ainda vivas a ter acompanhado o time na Copa de 1930, ele não queria abotoar o paletó de madeira antes de comemorar um título mundial. Por isso, vinha economizando cada centavo há muito tempo. Eu, que não gostava de futebol, achava aquilo um exagero. Bem, é como diz o ditado, cada cachorro sabe por que balança o rabo.
Quando ainda estávamos no Brasil, Feijão vivia dizendo aos amigos que a seleção tinha tudo para conseguir o título. Lá estavam os tetras Taffarel, Aldair, Dunga, Leonardo e Bebeto, além de Cafu, Roberto Carlos, César Sampaio, Rivaldo e, principalmente, o fenômeno Ronaldo. Na defesa havia um tal de Júnior Baiano, de quem Feijão não gostava muito, mas, como ele mesmo fazia questão de lembrar, nenhum time é perfeito.
No dia do jogo de abertura, contra a Escócia, saímos do hotel bem penteados e cheirosos, como se fôssemos a uma festa.
— Prepare-se, Marcos Roberto — ele disse. — Hoje você vai ver o primeiro passo de uma grande caminhada.
Não respondi nada, apenas olhei-o nos olhos assim como quem está com a pulga atrás da orelha.
Pegamos o metrô e seguimos na direção do campo. Apesar de ter deixado Paris há sessenta anos, meu amigo ainda conhecia bem a cidade e se movimentava com desenvoltura.
Chegando à entrada do Stade de France, encontramos uma multidão tão grande que, por um minuto, ficamos paralisados. Depois de respirar um fundo e tomar um vaso-compressor, um bronco-dilatador, um antialérgico, um antiartrítico, um calmante, um excitante e um bocado de gim, Feijão resolveu abrir caminho a bengaladas. Mas eu, mais baixo e sem armas, não consegui acompanhá-lo. Então deu-se o que eu mais temia: nos perdemos. Fiquei desesperado. Como não sabia emitir um mísero som em francês, fiz a única coisa que podia fazer naquele momento: sentei na calçada e chorei.
Pensei que ia ficar ali, esquecido para sempre, quando ouvi uma voz aguda dizer em português:
— Jesus amado!
Era uma mulher baixa e de cabelos grisalhos. O homem ao seu lado comentou: — Também te amo, Madalena.
— Não, Jesus, não estou falando com você. Olhe esse pobre cãozinho. O coitado deve ter se perdido do dono.
A boa senhora apanhou-me então com seus braços magros, apertou-me contra o peito e levou-me para dentro do estádio. Os carinhos dela consolaram-me um pouco, mas volta e meia eu erguia o focinho tentando sentir o cheiro de Feijão.
Quanto ao jogo, se me permitem o trocadilho, a Escócia foi um osso duro de roer. O Brasil fez 1 a 0 com César Sampaio, no que deve ter sido o primeiro gol de ombro de todas as copas, mas, logo depois, o mesmo Sampaio empurrou Durie na área e o juiz marcou pênalti. Collins igualou.
A vitória veio, enfim, na segunda etapa, depois de um longo lançamento de Dunga. Cafu, que vinha entrando em diagonal, chutou para a defesa de Leighton, mas, no rebote, o infeliz Boyd acabou colocando a bola dentro das próprias redes. Nesse momento, a boa senhora atirou-me para o alto.
Os humanos são imprevisíveis. Ainda mais Madalena. Ela havia sido freira por muitos anos no convento de Santa Chiara e estava numa missão religiosa em El Salvador quando reencontrou Jesus, que era o treinador de goleiros do Club Deportivo Dragón. Madalena abandonou a cruz, ele, as traves, e os dois abriram um restaurante católico no bairro de Pigalle, em Paris.
Na saída, ia eu no colo de Jesus quando uma senhora passou a mão em minha cabeça e falou:
— Que trem bonito demais da conta!
Jesus e Madalena trocaram um olhar de espanto e perguntaram ao mesmo tempo: — A senhorita é mineira?
— Sou, uai.
— Parece que ele gostou de você — disse Jesus, enquanto eu lambia a mão da mulher, na qual havia uns restos de pipoca.
— Igualzim um que eu tinha lá em Guadalajara.
Aquela mulher contou então que seu nome era Amélia e o apelido, Mel. Tinha acabado de chegar do México, onde dirigiu um hotel por quase trinta anos, até perder tudo num terremoto. Sentindo-se íntima dos dois, revelou que tinha ido à França para ver a seleção ser campeã como em 70. Depois pretendia voltar para o Brasil e terminar seus dias numa casinha no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte.
Meus donos ficaram tão comovidos com a história que a convidaram para ficar em seu pequeno apartamento.
Eles se abraçaram e eu gani, emocionado.
Nós quatro fomos, dias depois, assistir ao jogo contra Marrocos. O escrete brasileiro venceu por 3 a 0 com uma pancada de Ronaldo e dois gols do tipo até-eu-faria, marcados por Rivaldo e Bebeto. Mais fácil que correr atrás de um gato manco!
Para ser sincero, eu continuava não ligando muito para aquela história de Copa, mas, em respeito aos sentimentos deles, fazia o mínimo barulho possível durante os jogos. Até mesmo quando estouravam os rojões — vocês não imaginam o efeito daquilo nos nossos tímpanos — eu procurava me manter calado.
Em seu colar, Mel carregava uma foto do ex-marido, um tal de Jiló, de quem às vezes sentia saudades. Madalena perguntou se ela não tinha encontrado outros homens na vida e ela respondeu: — Fui solteira a vida toda, mas não estou matando cachorro a grito.
Não entendi bem o que ela quis dizer, de qualquer forma, fiquei aliviado.
Dois ou três dias depois do segundo jogo, nós passeávamos pela região de Les Halles quando ouvimos um sujeito berrar em francês: — Fora! Fora! Nunca mais me apareçam aqui, seus caiporas duma figa!
Ele parecia ser dono de hotel e gritava para dois sujeitos que vestiam camisas da seleção brasileira. Penalizada, Mel quis saber do que se tratava:
— Madame — disse o dono do hotel — desde que estes indivíduos se hospedaram aqui, o elevador quebrou, a calefação pifou, meu telefone ficou sem linha e apareceu uma rachadura na caixa d’água.
— Monsieur, o senhor está exageran... — ia contestar um dos sujeitos quando uma titica de pombo espatifou-se nos seus óculos.
— Puxa, que azar! — disse Mel. — Como é o seu nome?
— Frieira — disse Frieira limpando-se com um lenço. — E este é meu irmão, o Chulé.
Generosos como eles só, Jesus e Madalena convidaram os dois de boa fé para ficar alguns dias em seu apertado apartamento. Completando as boas vindas, Mel propôs que todos fossem juntos a Marseille ver o próximo jogo contra a Noruega:
— Aposto como o Brasil ganha desses comedores de bacalhau — brincou Jesus.
— Eu prefiro não apostar — emendou Frieira.
Nós seis embarcamos horas depois para ver a tal partida. Como o Brasil já estava na fase seguinte, entrou em campo meio desinteressado. Fizemos um gol, com Bebeto, mas os noruegueses viraram com Flo e Rekdal. Mel comentou: — Tem dia que o poste mija no cachorro.
Nem quero imaginar uma coisa dessas.
Apesar do aperto, dos esbarrões e das dificuldades (viviam pisando no meu rabo), o ambiente no apartamento ia de bom a melhor. Mel era uma filha para Jesus e Madalena, e os três riam dos azares de Frieira e das excentricidades de Chulé. Éramos quase uma família.
Chegou então a fase das oitavas-de-final e coube ao Brasil enfrentar o Chile, que vinha de três empates. Todos tinham um certo medo desse jogo, mas isso só durou até os onze minutos, quando Dunga cobrou uma falta perto da área e César Sampaio, de cabeça, abriu o placar. Aos 27 minutos, numa confusão na área, ele mesmo ampliou. E, um pouco antes de acabar o primeiro tempo, Ronaldo, cobrando pênalti, fez 3 a 0.
Na etapa final, o Brasil desperdiçou um monte de gols e um baixinho de nome Salas diminuiu. Mas aí Ronaldo marcou mais um e acabou com o jogo.
Saindo do Parc de Princes, fomos a um café beber alguma coisa. Chulé, Frieira, Mel e Madalena pediram Kir Royale e Jesus, é claro, tomou vinho. Eu fiquei na água mesmo. Na mesa ao lado havia um casal que comia silenciosamente. Depois de um tempo, o homem começou a olhar para Mel e levou uma cotovelada da esposa.
— Calma, querida, acho que reconheci alguém. — Então virou-se para Mel e perguntou: — Por acaso a senhora não era dona de um hotel em Guadalajara?
Logo o casal se juntou ao grupo. Ele era um sujeito grisalho chamado Minhoca e sua maquiada mulher tinha o nome de Victoire. Aliás, não sei se mulher é a palavra certa. Nós, cachorros, temos o hábito de cheirar as partes íntimas dos humanos e, bem, não é que eu queira meter o nariz na vida alheia, mas Victoire estava mais para Victor.
Os dois vinham da casa da mãe do Minhoca, onde tinha acabado de haver uma discussão.
— Mas por quê, gente? — perguntou Mel.
— Minha sogra é um pouco preconceituosa — respondeu Victoire sem entrar em detalhes.
Não é difícil imaginar o que aconteceu em seguida, difícil é imaginar como as pessoas se arranjaram na hora de dormir. Os donos da casa continuaram dividindo a cama de casal do único quarto, enquanto Minhoca e Victoire foram dormir na sala, Mel ficou no corredorzinho de entrada e os irmãos Frieira e Chulé ajeitaram seus colchonetes na cozinha. Quanto a mim, tive que me contentar com a área de serviço.
Foram dias felizes. Todos conversavam, jogavam cartas e riam sem parar. Eram gentis comigo e não havia hora em que alguém não estivesse me afagando. Apesar disso, eu não ficava um minuto sem pensar em Feijão, meu velho amigo. Onde estaria ele?
Depois de prepararmos lanches e sucos, os oito fomos a Nantes ver a partida das quartas-de-final contra a Dinamarca.
Foi um jogo terrível! Mal começou e Brian Laudrup cruzou para Jorgensen, que fez 1 a 0.
(Ops! Exagerei nas fotos e o espaço acabou. Continua no post abaixo)
Quando parecia que tudo estava perdido, veio o empate, com Ronaldo deixando Bebeto na cara do gol.
Quando tudo era indefinição, Ronaldo deu outro presente, dessa vez para Rivaldo, que definiu com perfeição: 2 a 1.
Quando parecia que tudo estava tranqüilo, Brian empatou.
Quando parecia que eles iam virar, Rivaldo marcou 3 a 2.
Quando parecia que tudo estava resolvido, estava mesmo, porque o nosso travessão defendeu uma bola no último minuto.
Confesso que acompanhei essa partida com mais atenção do que as anteriores e deixava cair as orelhas sobre os olhos quando o time de camisas escuras (nós vemos as coisas em preto e branco) fazia a seleção recuar para dentro da área.
Na saída do estádio vi uma grande estátua da taça Jules Rimet. Não me contive e fiz xixi no seu pé. Para meu espanto, a estátua disse: “Fora, cão!”. A estátua era um brasileiro de uns cinquenta anos chamado Cândido, que ganhava a vida fazendo aquele número. Todos se apresentaram e ficaram ali conversando por um tempo, até que, ao ver o colarzinho de Mel, Cândido apontou para a fotografia do ex-marido e disse:
— Ele foi um grande amigo do meu amigo Brutus.
— O Jiló? Jura? — perguntou Mel.
— Juro. O Brutus tinha até uma foto dele pendurada num quadro.
Com os olhos úmidos, Mel perguntou a Jesus e Madalena se ele também poderia ficar no apartamento.
Cândido passou a dormir na banheira.
Alguns dias depois, nós nove fomos assistir à semifinal entre Brasil e Holanda. Na outra, jogavam a dona da casa e uma seleção que vinha surpreendendo a todos, a Croácia.
Nessa altura, de tanto ouvir conversas sobre o assunto, entendia o meu bocado de futebol. Já sabia, por exemplo, que há dois tipos de jogos: os tranqüilos e os outros, aqueles em que se sofre, se ri, se fica nervoso, se dá pulos e se tem vontade de morder o próprio rabo. Brasil x Holanda foi um desses. O bom time holandês tocava a bola com inteligência, não desperdiçava passes e exibia craques como Frank de Boer, Davids e Bergkamp. Felizmente o esperto Overmars, contudido, não jogou. Mais felizmente ainda, Kluivert jogou.
Kluivert urra depois de perder um gol
Acho que isso pede uma explicação: É que, já no primeiro tempo, Kluivert perdeu duas boas chances; e no segundo desperdiçou outras duas, uma deles incrível, livre diante de Taffarel.
Ronaldo fez nosso gol aos vinte segundos do segundo tempo, depois de uma boa enfiada de Rivaldo. Quando faltavam quatro minutos para o fim do jogo, pensei que não corríamos mais perigo e já me preparava para abanar o rabo de felicidade. Mas aí Kluivert resolveu acertar uma cabeçada. 1 a 1.
Kluivert urra depois de fazer um gol
Na prorrogação, a Holanda, com a língua de fora, fechou-se lá atrás e nós tivemos nosso melhor momento em toda a Copa. A pressão foi constante e tivemos pelo menos quatro chances perdidas.
Vieram então os pênaltis e nessa hora valeu o treinamento: Ronaldo, Rivaldo, o capitão Dunga e até o reserva Émerson bateram com firmeza. Do outro lado, são Taffarel defendeu as cobranças de Cocu e Ronald de Boer.
Depois dessa classificação sofrida, os brasileiros fizeram um minicarnaval na Champs Elysées. Foi quando Cândido, parando diante de um pequeno palco improvisado, reconheceu dois amigos fazendo evoluções no meio de algumas passistas de escola de samba.
— Aqueles sujeitos já trabalharam no meu circo!
Um se chamava Gulliver e teria pouco mais que a minha altura, caso eu andasse em duas patas. O outro, magricela e com um turbante verde-amarelo, atendia pelo nome de Zé Cabala.
— E então, amigos, que fazem por aqui? — perguntou Cândido.
Zé Cabala falou: — As leis brasileiras não compreendem nosso ramo de atuação empresarial.
E Gulliver traduziu: — Estamos sendo procurados por curandeirismo e charlatanice.
Jesus e Madalena, sempre solícitos, perguntaram: — E onde vocês estão hospedados?
Gulliver e Zé Cabala foram dormir na área de serviço. Pior para mim, que tive de ser transferido para a pia da cozinha.
Às vezes a vida de cachorro é uma vida de cachorro.
Com dez humanos e um cão esbarrando-se a toda hora, era natural que todos preferissem passar a maior parte do tempo fora do apartamento. Nosso ponto de convivência passou a ser um bar em La Chapelle. Ali travamos longas discussões sobre futebol, regadas pelo bom vinho da casa. Mais curioso é que cada uma daquelas pessoas tinha uma história de Copa para contar. Eram histórias mirabolantes, espantosas e, digamos, incríveis.
Apesar do aperto, dos roncos, dos chutes, da falta de lençóis e de haver só um banheiro na casa, tudo se acalmava ao apagar das luzes. Nisso somos iguais: basta fechar os olhos e nossa imaginação nos leva para o melhor dos mundos. Naquela noite, com certeza, um mundo em que havia uma taça e faixas de campeão.
Jesus; Madalena e Mel; Frieira, Chulé e Minhoca; Victoire, Cândido, Gulliver, Zé Cabala e eu, Marcos Roberto. Esse foi o time que assistiu à final entre Brasil e França roendo unhas, limpando o suor do rosto e dizendo um bocado de palavrões cabeludos.
Como é do conhecimento geral, perdemos feio. A França deu um banho de disciplina, vontade e estratégia em nossa confusa seleção.
Esse jogo, aliás, foi precedido de muita tensão e histórias que só com o tempo serão explicadas. Primeiro divulgou-se uma escalação do time sem Ronaldo, depois outra com Ronaldo e depois o time não subiu ao gramado para fazer o aquecimento de rotina.
Por fim, Ronaldo jogou; quer dizer, entrou em campo.
Pela direita, Cafu estava emparedado por Petit e Lisarazu. Do outro lado, Rivaldo e Roberto Carlos nada conseguiam diante de Thuram e Deschamps. Sozinho no meio, Bebeto era presa fácil para Desailly e Le Boeuf.
Lá atrás, para piorar, Júnior Baiano dava calafrios na torcida e nosso capitão não mostrava a personalidade das partidas anteriores. Em vez do Dunga brigão e líder, mais parecia o dócil e mudo Dunga da Branca de Neve.
Mas o pior foi terminar o primeiro tempo já perdendo por 2 a 0, dois gols de Zinedine Zidane, de cabeça, após cobranças de escanteio em que Leonardo falhou na marcação.
Na segunda etapa, com Denílson e Edmundo, o Brasil tentou soltar os cachorros, mas o posicionamento dos franceses continuou perfeito. Desailly ainda foi expulso, porém, na maior parte do tempo, parecia que nós é que estávamos com dez. No fim, num contra-ataque veloz, o grande Petit selou o 3 a 0.
Saímos todos cabisbaixos do Stad de France e fomos afogar as mágoas num café do Quartier Latin.
O que aconteceu com Ronaldo? Por que ele jogou se não estava em condições? Por que Edmundo não começou como titular? Por que o time esteve tão apático? Eram perguntas que todos se faziam e que continuavam sem resposta.
De repente, senti um cheiro conhecido. Estiquei o pescoço, levantei as orelhas e olhei para a rua.
Sim, era Feijão! Ele vinha do estádio e andava sozinho, resmungando palavrões. Ao reconhecer meu latido, ele se virou, abriu um sorriso que até hoje não me sai da cabeça e disse:
— Marcos Roberto, onde você estava, seu cachorro?
— Au! — eu respondi.
— Procurei você por toda a cidade!
— Au! — eu comentei.
— Não faz mal — ele concluiu. — O importante é que estamos juntos de novo.
Feijão enturmou-se rapidamente com o grupo e, no momento em que reconheceu Madalena, sua quase-filha, ficou quase tão contente quanto ao me ver.
Já voltávamos para casa quando resolvemos dar uma parada no meio da Ponte Neuf, onde abrimos uma garrafa de vinho e fizemos uma espécie de brinde dos derrotados. Lá estavam um centenário senhor, dois ex-religiosos que encontraram o amor quando não mais esperavam, uma adorável senhora solitária, dois irmãos azarados e estranhos, um amoroso e diferente casal, um sujeito mais bondoso que inteligente e uma dupla de simpáticos picaretas, todos falando de vitórias, empates e derrotas, mas, na verdade, celebrando a alegria de terem se conhecido.
Nessa hora, o vento empurrou uma latinha de cerveja até os pés de Feijão. Ele a chutou na direção de Cândido, que passou para Victoire, que deu de chaleira para Chulé, que tocou para Mel, que fez duas embaixadas e mandou-a para Gulliver, que de cabeça passou para Frieira, que tropeçou na latinha. Não demorou muito e a brincadeira se transformou num jogo, com todos dando passes, dribles, chutes e risadas.
Se não fosse pela seleção e pelas copas, aquele curioso grupo nunca teria se encontrado, o que seria uma pena. Naquele momento pensei que, se é verdade que uma meia dúzia de tolos briga por causa do futebol, muito maior é o número dos que se tornam amigos por causa dele.
Foi então que, enquanto eles continuavam naquela festa, subi na mureta da Pont Neuf e, na minha língua particular, que vocês entendem como ganidos, latidos e rosnados, bradei para as estrelas:
A Copa de 1978 foi na Argentina. Estava havendo lá uns atentados, seqüestros e coisa e tal. Por causa disso a Copa quase teve que mudar de lugar na última hora, mas os guerrilheiros fizeram um pacto com o governo, jurando que não aprontariam nada durante os jogos.
Novamente a delegação teve que ter uns seguranças e novamente lá estava eu. Logo que cheguei, recebi uma visita inesperada na concentração. Foi uma alegria só.
— Brutus!
Eu não via o meu amigo desde 1975. No quartel disseram-me que ele andava fazendo palestras pela América do Sul.
— Cândido, seu estúpido! — disse ele, mas esse “estúpido”, eu creio, era no sentido positivo da palavra.
— Você não estava no Chile? — perguntei.
— Fiquei lá um tempo, mas me convidaram para vir aqui dar um curso de “Estratégias de convencimento e persuasão”.
— O que que é isso?
— Você não ia entender, deixa pra lá.
— E está trabalhando muito?
— Feito um animal. A Argentina é um excelente campo para os profissionais do meu ramo.
O Brutus disse que a Casa Rosada era branca, mas ficou rosada por causa do sangue dos vermelhos. Até hoje não entendi a piada.
Começamos então a falar de futebol. Eu expliquei a ele que depois do trauma de 1974 começou um debate maluco em todo o país. Uns falavam que era preciso dar mais valor à estratégia, outros diziam que o jogador brasileiro era um artista que nunca se adaptaria aos rigores da tática européia.
Um dos principais defensores das novas idéias era o técnico Cláudio Coutinho. Ele chocava a imprensa com expressões do tipo overlaping e ponto futuro, e fazia experiências esquisitas para a época, como jogar com dois volantes. Invencionices à parte, a equipe impunha respeito: Leão; Toninho, Oscar, Amaral e Edinho; Batista, Toninho Cerezo, Zico e Rivelino; Gil e Reinaldo.
Ainda assim, o desgramado do Brutus, sempre com aquela desconfiança, achou que não era time suficiente para ser campeão: — Essa Copa já tem dono, cândido. Os argentinos vão ganhar para o povo ficar sossegado por uns tempos.
Nossa estréia aconteceu em Mar del Plata, contra a Suécia, num jogo que lembrou os da Copa de 74. Edinho não se acertava na lateral, Cerezo errava a maioria dos passes, e Zico e Reinaldo estavam tímidos que nem menina da roça. Lá pelas tantas, para ajudar, Rivelino se machucou.
Mas como desgraça pouca é bobagem, no segundo tempo o Coutinho deu um jeito de o ruim ficar pior: tirou Gil e colocou Nelinho, formando um ataque esdrúxulo com dois laterais. Ficamos no 1 a 1, golzinho sem graça de Reinaldo.
Nesse jogo, porém, no último minuto, houve um lance inacreditável: era escanteio para nós. A bola veio e o Zico, de cabeça, mandou para o fundo do gol, mas o juiz, um galês chamado Clive Thomas, disse que tinha encerrado a partida enquanto a bola estava no ar. Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas.
Este é o Clive Thomas. Enganos acontecem, coitado.
Quatro dias depois, contra a Espanha, o Brasil conseguiu o que parecia impossível: fez a gente sentir saudade do jogo contra a Suécia. Coutinho insistia nas excentricidades e o time não rendia. Aliás, nós só não perdemos para a Espanha porque aconteceu um milagre: o lateral deles fez um cruzamento para o atacante Santillana, e Leão saiu mal para cortar o cruzamento. Santillana chegou primeiro, tocou para Juanito e este avançou para o gol. Só o zagueiro Amaral, em cima da linha, podia evitar o desastre. Quando Juanito estava a três passos do gol, arriscou o chute.
Vou ser sincero: não tive coragem de olhar. Baixei a cabeça, fechei os olhos e fiquei ali, durinho, esperando o pior. Mas aí, em vez de eu escutar um “goooooool”, ouvi um “uuuuuh”. Então abri o olho esquerdo, olhei pro Brutus e vi ele beijando uma medalhinha de Nossa Senhora Aparecida:
— O Amaral tirou, Cândido! Pra frente, Brasil!
Depois desse jogo, a delegação entrou em crise. A imprensa descia o pau, todo mundo dava palpite. Até o Brutus, quando foi visitar a concentração, deu o seu. Ele chegou meio bêbado para o almirante Heleno Nunes e disse: — Esse time só tem uma solução: dinamite! — O almirante acabou chamando o Coutinho para uma reunião secreta. Não sei o que eles falaram lá, mas foram anunciadas algumas mudanças.
Na lateral-esquerda saía o Edinho (que na verdade era quarto-zagueiro) e entrava o simples e competente Rodrigues Neto.
Na meia-direita saía o Zico e entrava o Jorge Mendonça.
No ataque, atendendo ao pedido do Brutus, entrava o Roberto Dinamite no lugar do Reinaldo.
Foi um alívio. O Brasil finalmente achou um padrão de jogo e mostrou a sua força. Vencemos a Áustria por 1 a 0 e o gol, marcado justamente pelo Roberto Dinamite, fez o país inteiro explodir de alegria.
E lá fomos para a fase seguinte. Pegamos um grupo com Peru, Argentina e Polônia. Vá lá, eram jogos difíceis, mas eu estava esperançoso.
Logo na primeira partida, em Mendoza, a seleção brasileira confirmou o que eu pensava: estava pegando ritmo. Enfiamos 3 a 0 goela abaixo dos peruanos e jogamos bonito. Nessa partida o finado Dirceu comeu a bola: emplacou dois gols e foi o maestro do meio-campo. Cheio de personalidade. O terceiro quem fez foi o Zico, de pênalti.
Fomos então para o duelo contra os argentinos. Eu e Brutus pegamos o ônibus para Rosário e ficamos lá, quietinhos no meio dos hinchas. O Brutus estava de óculos, nariz e bigode falsos.
Cara estranho o Brutus.
Ninguém duvidava que dali sairia o finalista do grupo, por isso o jogo foi um nervosismo só! Na defesa, o Brasil fez tudo certo: prevendo que o pau ia comer, o Coutinho tirou o Toninho Cerezo e colocou o Chicão.
— Esse cara é o meu ídolo! — disse o Brutus.
O volante do São Paulo jogou como um xerife à frente da área e devolveu todas as botinadas que o pessoal da frente levou. Porém, faltou sorte no ataque, até na trave mandamos. Como a Argentina não se arriscou, no final o placar não saiu do 0 a 0.
Depois da Batalha de Rosário, a decisão ficou para a última rodada. O Brasil enfrentaria a Polônia e a Argentina o Peru.
Brasil e Polônia jogaram algumas horas antes de Argentina e Peru. O Brutus falou que isso era mutreta, porque os argentinos entrariam em campo sabendo quantos gols tinham que fazer. O meu amigo tinha cada idéia...
A Polônia era praticamente o mesmo time de 74, e ainda trazia novas estrelas como Lubanski e Boniek. Jogamos bem e vencemos por 3 a 1. Nelinho finalmente acertou um daqueles seus chutes tortos e Roberto Dinamite fez dois gols. Melhor ainda que a gente abriu um bom saldo. A Argentina só seria a finalista se ganhasse do Peru por quatro gols de diferença.
Boniek era o Zico deles.
Eu e Brutus vimos essa partida na casa dele. Tinha uns objetos meio estranhos lá, mas o mais de todos era uma cadeira que parecia uma daquelas de barbeiro, só que com umas correias e uns fios. Ele chamava aquela poltrona de “cadeira do dragão”. Assisti ao jogo dali.
Reparei que na parede havia um quadro de cortiça com várias fotos.
— Seus amigos, Brutus?
— Mais ou menos.
— Tem um aqui com nome engraçado: Jiló!
— Esse eu conheci no Araguaia.
— Pescaria?
— Caça.
Então o Brutus fez pipoca e pôs um lacinho verde-amarelo na antena da tevê. Aos poucos, porém, a gente foi ficando verde de raiva e amarelo de tristeza.
Os jogadores peruanos, coitados, tiveram uma noite muito ruim: não se posicionaram direito, perderam bolas bobas, erraram passes e deixaram buracos na defesa. O goleiro deles, Quiroga — um argentino naturalizado peruano — vinha jogando muito bem, mas dessa vez levou gols fáceis. Acontece.
Quando a partida terminou, a decepção: 6 a 0. Brutus chamou Quiroga, Duarte, Rojas, Manzo, Chumpitaz, Quesada, Cueto, Cubillas, Muñante, Velásques e Oblitas de traidores. Houve até uma conversa de que cada um deles tinha ganhado cinqüenta mil dólares para facilitar a vitória argentina. Mas eu disse para o Brutus que nada tinha sido apurado e que não se devia acusar as pessoas sem provas. Ele não se conformou e disse:
— Se um dia eu for trabalhar no Peru, essa turma vai ver o que é bom pra tosse!
Fora das finais, o Brasil despediu-se diante de quase setenta mil pessoas no Monumental de Nuñez, contra a Itália. Vencemos bem, 2 a 1: Dirceu de novo, de fora da área, e Nelinho, com um gol de cinema, um chute que fez duas lindas curvas no ar e surpreendeu Dino Zoff.
Nelinho tinha um canhão no pé.
Saímos da Copa invictos mas em terceiro lugar. Coutinho, que adorava inventar expressões, disse que nós éramos os “campeões morais”. O Brutus, ainda chateado com aquele jogo contra o Peru, falou:
— Prefiro ser um campeão imoral de verdade do que um campeão moral de mentira.
A decisão foi disputada no dia seguinte, no mesmo Monumental de Nuñez, entre Argentina e Holanda. A Argentina marcou primeiro — Kempes —, e parecia que ia ganhar fácil, mas Naninnga, de cabeça, empatou aos 37 minutos do segundo tempo. No último minuto tivemos uma prova de que Deus pode até não ser brasileiro, mas seguramente não é holandês. Resenbrink foi lançado na ponta, adiantou-se aos zagueiros e tocou de leve na saída de Fillol: a bola pingou no chão e bateu na trave.
Kempes, o herói da decisão.
No primeiro tempo da prorrogação, a profecia de Brutus se confirmou: Kempes trombou com Jongbloed e a bola ficou saltitando à frente do gol. Os holandeses correram para afastá-la, mas Kempes deu uma solada e empurrou a bola para as redes. O juiz ignorou os protestos. No segundo tempo, numa trama pelo meio da zaga, Bertoni marcou o terceiro e consolidou a vitória.
Acabado o jogo, o Brutus virou-se para mim:
— Viu? Eu não disse que a Argentina ganhava de qualquer jeito?
Eu respondi que eles venceram porque tinham um bom time, afinal não é todo dia que você junta Fillol, Passarella, Ardiles, Gallego, Luque e Kempes.
— Tá, mas você não achou umas coisas meio estranhas? — perguntou o Brutus.
— Como o quê?
— Por exemplo, se você pegar o mapa e fizer as contas, vai ver que, para jogar as sete partidas, o Brasil teve que viajar 4.659 quilômetros.
— E daí? A Argentina é um país muito grande.
— Mas a seleção deles só teve que percorrer 618 quilômetros.
— Caramba, que sorte! — eu disse. Não sei por quê, mas o Brutus ficou meio vermelho. Depois continuou:
— E não é só isso. Andei ouvindo que eles contrataram um cara só para fazer xixi, porque estavam tomando tanta anfetamina que nunca iam passar no exame antidoping.
— Imagina! Eles são profissionais, nunca iam fazer isso. Deve ser invenção da imprensa.
Ele ficou ainda mais vermelho e falou:
— E aquele jogo contra o Peru?
Eu, bem calmo, respondi:
— O Quiroga não estava inspirado.
Não sei se eu estou com impressão errada, mas acho que ele ficou ainda com mais raiva, tanto que do vermelho foi para o roxo. Aí falou assim, meio entre os dentes:
— Às vezes você é muito cândido, Cândido!
Naquela noite, enquanto toda a Argentina comemorava, Brutus preparou o jantar. Fiquei lendo umas revistas do Mickey e, quando ele me chamou para comer, vi que, bem no meio da mesa, havia um enorme peru assado. Nós nos sentamos e começamos a comer. Ele dava cada mordida que metia medo! Devia estar com uma fome tremenda. No corpo do bicho havia umas marcas meio esquisitas, como se fossem uns queimados.
— O que é isso, Brutus?
— Isso o quê?
— Essas marcas no peru...
— Essas seis, mesmo número de gols que levou a seleção do Peru e que parecem ter sido feitas com algum aparelho de eletrochoque de 100 volts e corrente de 10 ampères chamado “pimentinha”, muito usado por torturadores?
— É.
— Não sei, nem tinha reparado.
Cara estranho o Brutus. Nunca mais o vi depois daquela noite. Parece que morreu numa explosão, anos depois, no Rio de Janeiro. Uma coisa assim. Era um 1o de maio e ele estava num Puma, se não me engano. Teve quem dissesse que o carro explodiu por causa de uma bomba, mas deve ser mentira. O que o Brutus ia estar fazendo com uma bomba? Explodi-la no Riocentro e matar um monte de gente? Que bobagem! É a mesma coisa que dizer que teve tortura no Brasil.
Nas Olimpíadas de Munique, em 1972, tinham acontecido atos de terrorismo contra a delegação de Israel. Então, na Copa de 74, que também seria na Alemanha, acharam melhor incluir uns seguranças na delegação brasileira.
Eu tinha vinte e poucos anos e acabara de entrar para o Exército, mas, como minha mãe era tia da cunhada do irmão do genro da sobrinha da nora do primo de um coronel, consegui uma vaga como segundo segurança do massagista.
O primeiro segurança, meu superior, era um cara que tinha um apelido engraçado: Brutus. Ele trabalhava num setor especial do Exército, um tal de SNI, Serviço Nacional de Informação. Ele me disse que era um “agente de captação de dados através de métodos heterodoxos”, o que não faço a menor idéia do que seja. Nunca perguntei, mas acho que o Brutus tinha esse apelido porque gostava muito dos desenhos do Popeye.
Antes que me esqueça, meu nome é Cândido. Cabo Cândido.
Logo que chegamos a Frankfurt, eu e Brutus descobrimos que tínhamos uma coisa em comum: gostávamos de jogar mau-mau; ficávamos horas nas cartas. Como eu sempre perdia, uma vez falei:
— Brutus, jogar mau-mau com você é uma tortura.
E ele respondeu com voz cavernosa: — Essa é a minha especialidade — e riu tanto que quase caiu da cadeira.
Bem, vamos ao que interessa.
O Brasil era o campeão do mundo, mas contusões e aposentadorias nos tiraram Pelé, Tostão, Gérson, Carlos Alberto, Brito e Clodoaldo.
No gol, Leão ganhou a vaga. A defesa era respeitável: Nelinho, Luís Pereira, Marinho Peres e Marinho Chagas. O meio-campo também era forte: Piazza, Rivelino e Paulo César. E o ataque era pelo menos razoável: Valdomiro, Leivinha e Jairzinho.
Eu achava que era time de sobra para o tetra. O Brutus não. Ele dizia que nome não ganha jogo e que o esquema do Zagallo era retranqueiro. Como eu era teimoso e ele era turrão, essa discussão começava logo de manhã no palitinho, continuava à tarde no dominó e só terminava à noite no mau-mau.
Campeão mundial, o Brasil fez a partida de abertura contra a Iugoslávia no Wald Stadion. Eu não duvidava da vitória. E por goleada!
A iugoslávia era assim.
— Esses branquelos têm que comer muito mocotó para ganhar da gente!
— Não sei — disse o Brutus. — Comunista é duro na queda.
Ele estava certo. Foi um jogo lá e cá. Atrás nos agüentamos, mas do meio-campo para a frente, tirando Rivelino e Jairzinho, só tristeza. Paulo César — que tinha sido vendido antes da Copa para o Olympique de Marseille — parecia um pouco desmotivado; Leivinha não desencantava e Valdomiro ia bem, mas errava passes, chutes e cruzamentos. No fim, 0 a 0. Brutus tinha a sua explicação para o empate:
— Contra comunista tem que jogar duro, não adianta enfeitar!
Paciência. Lá fomos nós pegar a Escócia. Bebemos meia garrafa de uísque para comemorar por antecipação e Brutus foi para o estádio dizendo que não podíamos perder para um time que usava saias.
A seleção escocesa entrando em campo.
Não podíamos, mas quase perdemos. O Brasil até que atacou, mas esbarrou na retaguarda dos escoceses. Os jogadores que tinham ido mal na primeira partida continuaram não indo bem. O Brutus não se conformou com aquele segundo 0 a 0:
— Assim não dá! O Leivinha tá apanhando mais que estudante em passeata, o Paulo César joga mais escondido que guerrilheiro e o Valdomiro tá mais isolado que o Partidão!
Nunca entendi muito bem as coisas que o Brutus falava. No dia seguinte, por exemplo, ele chegou para mim e cochichou: — Cândido, acho que esse Zagallo deve ter sido torturador no passado.
— Por quê, Brutus?
— Porque ele domina as técnicas da profissão. O time está tão mal escalado que dói, mas ele fica ali, impassível, só vendo a gente sofrer. E tem mais: numa boa tortura, o torturado não pode perder a esperança de vez, entende? Senão ele não se importa com mais nada. E é isso o que acontece com o Brasil. Esses empates mantêm o time vivo, mas a gente não pára de sofrer. Coisa de profissional.
O certo é que com aqueles dois empates estávamos mesmo numa sinuca de bico. Tudo se decidiria em Gelsenkirchen — eh, nominho! — no jogo contra o Zaire. Eles tinham tomado de 9 a 0 da Iugoslávia e de 2 a 0 da Escócia. O Brasil precisava então ganhar pelo menos por três gols de diferença.
Era isso ou o vôo de volta.
Nem dá para imaginar o estado de nervos em que o Brutus ficou. Ele dizia que até o time dos pracinhas da FEB, treinando direitinho, ganharia do Zaire, mas que aquela seleção...
E veio o jogo. Bola daqui, bola dali, o Brasil em cima e lhufas. Pensei que a gente ia virar o primeiro tempo já com uns quatro gols na frente. Que nada! O placar foi unzinho a zero, gol de Jairzinho. Veio o segundo tempo e continuou a lengalenga. O Brasil superior, mas sem rapidez, sem entrosamento, sem trama de jogadas.
— Parece o pessoal da esquerda — disse o Brutus.
Resultado: faltando quinze minutos, estávamos caindo fora da Copa.
Aí, para dar uma esperancinha, veio o segundo gol. A zaga deles rebateu mal e a bola caiu nos pés de Rivelino, que mandou o canhão para as redes. Mas aquele resultado ainda não bastava. Com o 2 a 0, os escoceses ficavam com a vaga.
E toca a roer unha!
Mas então, quando o juiz já ia apitar o toque de recolher, passaram a bola para o Valdomiro e ele resolveu mandar para o gol. Não era o mais recomendado: ele estava sem equilíbrio, não tinha ângulo e, para piorar, pegou esquisito na bola. Não me pergunte como, mas ela entrou. O goleiro Kazadi engoliu um dos maiores frangos da história das copas e, graças a ele, passamos para a fase seguinte.
Valdomiro, o salvador.
E quem vinha pela frente? A Argentina, a Holanda e a Alemanha Oriental.
Aí o Zagallo resolveu mudar o time. Nelinho deu lugar a Zé Maria, saiu Piazza e entrou Paulo César Carpegianni, e Leivinha, contundido, foi substituído por Dirceu. Com isso o time passou do 4-3-3 para o 4-4-2.
Os progressos apareceram no jogo contra a Alemanha Oriental. Como naquela Copa tudo foi sofrido, o gol só saiu numa cobrança de falta. Jairzinho ficou no meio da barreira adversária e se abaixou na hora do chute. O Rivelino mandou o tiro bem naquele buraco e a bola estufou o canto direito do goleiro Croy. Inacreditável! O Brutus vibrou muito com aquele gol e ficou pulando de alegria.
— Isso é que é tática! Infiltra um espião no meio dos comunas e depois manda a bomba!
Ele era um cara meio estranho.
Bom, e lá vieram os argentinos. Era o primeiro Brasil x Argentina numa Copa. Rivelino, sempre ele, fez 1 a 0, batendo de fora da área, mas Brindisi empatou. Saímos do sufoco no segundo tempo, depois de uma roubada de bola do Zé Maria, que entrou pela área e cruzou para o Jairzinho. Belo gol!
Zé Maria era uma figura (clique no Super Zé para ver os gols daquele jogo)
A decisão de quem iria à final seria contra os holandeses, que vinham de um 2 a 0 sobre os alemães orientais e de um 4 a 0 contra os argentinos. Eles podiam até empatar. Vi esse jogo pela televisão, ao lado do Brutus, ele ali dizendo que o Brasil tinha que se cuidar, que o futebol deles era moderno, coisa e tal.
Eu respondi meio bravo: — Quê! Isso é jogo de peladeiro!
Sinceramente era o que eu achava. Os laterais avançavam como se fossem pontas; o tal de Krol, que era zagueiro, se mandava para o ataque quando bem entendia; o pelé deles, o Cruyff, jogava em todos os lugares do campo; e eles não tinham centroavante, porque os dois da frente — Rep e Resenbrink — zanzavam pelo ataque para confundir a marcação. Tinha lá um Haan, habilidoso, e o tal de Neeskens, que entendia do riscado. Mas era só.
No primeiro tempo a partida foi equilibrada: eles mais rápidos, claro, e nós pesadões, tocando a bola, esperando a hora do bote. Mas no segundo tempo, num piscar de olhos, eles definiram o jogo. O primeiro gol foi de Neeskens, num chute dividido com Luís Pereira, que encobriu Leão. O segundo numa escapada rápida que acabou com um toque de chapa de Cruyff.
(clique na imagem para ver os gols daquela triste partida)
Restou-nos decidir o terceiro lugar. Perdemos para a Polônia: 1 a 0, gol do carequinha Lato, artilheiro do mundial com sete gols.
Meu amigo ficou enfurecido com o resultado desse jogo: — Odeio perder para vermelhos! — Para espairecer, decidimos ir a uma cervejaria e escolhemos uma chamada Der Röte, que, por acaso, quer dizer “O vermelhão”.
O dono era um sujeito com bochechas rosadas, casado com uma mulata brasileira que tinha uns trezentos dentes muito brancos. Curiosamente, todos os garçons usavam ternos amarelos como uniforme.
Quando soube que éramos brasileiros, o dono do Der Röte veio até nossa mesa e apresentou-se:
— Minha nome ser Dieter Bonn, mas toda munda chama eu de Dito Bombom. Depois fez com que experimentássemos uns vinte tipos de cerveja, das mais variadas cores, texturas e gostos.
Os neurônios de Brutus ficaram tão bêbados que ele começou a comparar as seleções com modelos econômicos. Disse que o Brasil lembrava um capitalismo de Estado, com algum espaço para a livre-iniciativa, mas amarrado por um sistema rígido e um tanto ultrapassado. A Holanda era o anarquismo, com cada um fazendo o que bem entendia, mas tudo de uma forma orgânica; a Polônia era socialista, organizada, forte na defesa mas sem muita mobilidade; e a Alemanha era o capitalismo dos países ricos, poderoso, eficiente, sempre jogando duro e entrando para ganhar nas divididas.
No dia seguinte fomos assistir à final da Copa entre a Holanda e a dona da casa, a Alemanha Ocidental. Todo mundo esperava a vitória da Laranja Mecânica, que começou na frente com um gol de Neeskens cobrando pênalti. Mas a Alemanha empatou com Breitner, também de pênalti, e passou à frente numa girada de Gerd Müller aos 43 minutos do primeiro tempo. Depois, a Holanda não teve forças para reagir e entregou os pontos.
Voltamos ao bar do senhor Bombom para tomar a última cerveja em Munique. Eu, que tinha torcido para a Holanda, estava inconformado:
— Os peladeiros tinham um jogo mais bonito, mais criativo, com mais liberdade. Não foi justo...
Então o Brutus fincou o garfo numa batata, ergueu o braço e exclamou: — Ao vencedor, as batatas!
E Bombom, erguendo um copo, emendou: — E o cerveja!
Lembro como se fosse hoje. Era o nosso terceiro aniversário de casamento. Eu peguei uma taça de vinho, ergui e disse: — Luz dos meus olhos, ar que eu respiro, milho da minha pamonha, hoje completamos três anos de plena felicidade. Isso não é maravilhoso?!
Pensei que fosse ganhar um beijo, mas ele, sem mesmo se virar, resmungou: — Hoje é o aniversário da grande revolução albanesa e você vem me falar em casamento, essa bobagem burguesa!
O Jiló tinha entrado para um grupo de esquerda. Colocou um pôster do Marx na sala, um do Che no quarto e outro do Mao no banheiro. Tive prisão de ventre por duas semanas. No começo estranhei tudo, mas amava tanto aquele cruzeirense que nem pestanejei: fiz minha ficha na organização.
Esse é o Marx novinho. O Jiló era a cara dele.
Naquela época fiquei com um visual um pouco diferente: parei de depilar as axilas, deixei crescer o cabelo, vestia jeans e usava boina. Mas por dentro continuava a mesminha: sempre que dava fugia das reuniões, me enfiava no banheiro, ligava o radinho e escutava os jogos do Atlético e da seleção. Um dia, depois do Brasil meter 6 a 0 na Venezuela pelas eliminatórias, fiquei emocionada e perguntei ao Jiló o que ele achava de a gente ir assistir à Copa no México. Perguntinha besta, coisinha de nada, mas não é que ele me vira um bicho e começa a dizer um monte na minha orelha?
— Como você me fala uma besteira dessas! O futebol é o ópio do povo, camarada Mel! Ir ao México? Nem morto!
— Mas Jilozinho, quer dizer, camarada Jiló, o técnico da seleção é do Partido Comunista.
— É verdade, o João Saldanha está no partidão...
Vendo que ele tinha ficado meio assim, aproveitei a chance e disse:
— Aqui ó, Jiló, escuta: a Copa vai ser transmitida ao vivo, sabe o que é isso? Ela vai ser vista pelo mundo todo. Meu plano é que a gente vá aos jogos, fique num lugar bem em frente às câmeras e aí abra uma faixa “Viva a revolução!” Entendeu aonde eu quero chegar?
O Jiló fez cara feia a princípio, mas depois achou o negócio interessante e, no fim aceitou, com a condição de que, depois da Copa, a gente desse uma passadinha em Cuba. Naquela hora tive vontade de cantar “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção...”, mas como isso iria estragar tudo assobiei o hino da Internacional Socialista. O Jiló sorriu e me beijou.
Aquela Copa tinha que ser nossa. A seleção juntou um monte de craques, tantos que cinco deles (Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivelino e Pelé) jogavam com a camisa dez nos seus times. Uns meses antes da competição, o general Médici, como bom ditador, cismou que o Saldanha tinha que escalar o centroavante Dario. O João Sem Medo respondeu que o presidente escalava o ministério e ele escalava o time. No dia seguinte o Zagallo assumiu.
Eu acho que eram tantos craques que nem de técnico precisava. O time-base era Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Pelé; Jairzinho e Tostão. No banco, feras como Leão, Zé Maria, Marco Antônio, Paulo César e Edu. Sem falar nos que não foram convocados. Dava para formar outra seleção: Manga; Eurico, Luís Pereira, Djalma Dias e Rildo; Zé Carlos, Dirceu Lopes e Ademir da Guia; Paulo Borges, Toninho Guerreiro e Lula.
Bom, nós viajamos, coisa e tal, e no dia 3 de junho de 1970 chegamos cedo ao estádio Jalisco, em Guadalajara. Colocamos a faixa em um lugar bem visível. Para falar a verdade, eu nem ligava para a faixa; estava mesmo é apreensiva com a estréia. No grupo, só pedreira: Tchecoslováquia, Inglaterra e Romênia.
Logo de cara pegamos os tchecos. O começo foi meio equilibrado, com pinta de 0 a 0, até que, numa escapada pela esquerda, Petras colocou no canto oposto de Félix. Jiló vibrou: — Viva o socialismo!
Mas quando Petras se ajoelhou e fez o sinal da cruz ele se sentou e esbravejou: — Carola traidor!
Logo depois, porém, falta para nós na entrada da área: Rivelino mandou uma bomba e empatou. Eu não agüentei e berrei: — Gol!
E o Jiló, impassível, disse: — Camarada Mel, com esse grito você está sendo conivente com a situação política do Brasil. Eu fechei a boca e a cara.
Quem manjava mesmo de esquerda era o Rivelino
Ainda no primeiro tempo, esses olhos que a terra há de comer viram um dos lances mágicos de Pelé naquela Copa. Ele recebeu uma bola antes do meio-campo e, vendo Viktor adiantado, resolveu tentar o gol. O estádio inteiro viajou com aquela bola e soltou um “ohhh” de decepção quando ela passou a um metro da trave. No segundo tempo voltamos mais soltos e liquidamos a fatura com um gol de Pelé e dois de Jairzinho, um deles bonito demais, dando chapéu no goleiro, matando a bola no peito e soltando a bicanca.
Nesse dia, na saída do estádio, vi dois torcedores brasileiros brigando de um jeito muito esquisito: um só dava cabeçadas e o outro pontapés. Deve ser o efeito da tequila mexicana.
O segundo jogo foi contra os ingleses, os campeões do mundo, que tinham Banks, Hurst e os bobbies Moore e Charlton. Esse jogo foi realmente pau a pau, com os dois times perdendo chances de gol. Numa delas, Pelé acertou uma cabeçada mortal de cima para baixo, mas Banks voou e, com um tapa, conseguiu jogar a bola sobre o travessão. Aí foi a vez de Tostão. Ele recebeu uma bola na esquerda e foi fazendo fileira com os ingleses: fintou um, pôs a bola no meio das pernas de outro, fez que ia e não foi, girou o corpo e deu um centro milimétrico, pondo a bola nos pés de Pelé. O Rei dominou, atraiu os zagueiros e rolou para Jairzinho. Aí, meu filho, nem Banks.
O Pelé estava dizendo: "I'm sorry, Bobby."
Depois dessa partida o Jiló começou a ficar desconfiado: — Será que estamos mesmo divulgando a revolução?
— Claro, camarada Ji, nós estamos ligando a revolução ao esporte, a guerrilha ao futebol, a luta aos gols.
Ele ficou coçando a barba por cinco longos minutos. Depois disse: — Então tá.
Com a classificação certa, o time poupou titulares e energias contra a Romênia. Entraram Fontana, Marco Antônio, Paulo César e Edu. Foi um jogo sem graça, meio lá e cá, e o Félix deu uma saída esquisita num dos gols deles. Ainda assim fizemos o suficiente para vencer por 3 a 2, dois gols de Pelé e um de Jairzinho.
Nas quartas-de-final pegamos o Peru, que tinha desclassificado a Argentina nas eliminatórias e era dirigido pelo nosso Didi. Quando a bola começou a rolar, deu pra perceber que seria carne de pescoço: eles marcavam o Pelé em cima e tinham uma espinha dorsal eficiente, com Chumpitaz, Mifflin, Baylon e Cubillas. Sorte nossa é que o goleiro deles era o Rubiños e não o Banks. Pelé foi muito bem marcado, mas Tostão assumiu a batuta e fez dois gols. Os outros foram de Jairzinho e de Rivelino, num chute de três dedos que fez uma curva inacreditável. No final das contas, 4 a 2.
A cada jogo eu ia ficando mais contente. E o Jiló mais desconfiado.
— Camarada Amélia, e se nós fôssemos direto para Cuba? Acho que a gente ainda consegue chegar no final da colheita do tabaco.
O Jiló queria vir para cá.
Eu me imaginei com um lenço encardido na cabeça, debaixo de um sol de meio-dia, suando feito uma porca e sendo comida pelos mosquitos. Tive vontade de dizer: — Você está louco, Jiló?! Nem morta eu vou perder o próximo jogo do Brasil!
Mas o que eu falei foi: — Eu adoraria colocar um alvo lenço sobre meus cabelos, receber o calor do sol, suar pela revolução e doar meu sangue aos mosquitos cubanos, mas ainda não cumprimos nossa missão aqui no México. Temos que espalhar nossa mensagem pelos quatro cantos do mundo.
Quando olhei para o Jiló, ele estava com os olhos rasos d’água. Aí enxugou-os e disse: — Então tá.
O jogo seguinte já era a semifinal contra o Uruguai. Era nosso primeiro encontro com eles em Copa do Mundo desde a tragédia de 1950. Foi um jogo muito aguardado e disputado debaixo de grande tensão. Logo de cara, a Celeste abriu a contagem com um chute despretensioso de Cubilla: a bola passou pererecando na frente do Félix e depois bateu num morrinho e entrou. Era tudo que a gente não precisava. Os uruguaios se fecharam na defesa e começaram a descer o sarrafo, a catimbar, aquele joguinho enervante que eles sempre fazem.
Mas o que não faltava naquela seleção era opção de jogada. Tostão começou a cair para a lateral do campo, assim como quem não quer nada, e foi puxando os marcadores. Uma hora, ele percebeu um vazio na esquerda da área e fez um lançamento perfeitinho, perfeitinho. Os uruguaios estavam concentrados em Jairzinho, Pelé e Rivelino; mas, de repente, Clodoaldo apareceu na cara de Mazurkiewicz e mandou o tijolo. Foi o gol certo na hora certa! No segundo tempo o Brasil voltou tranqüilo e aí veio o baile: fizemos 3 a 1 com Jairzinho, num drible em que ele quase quebrou a espinha do zagueiro, e com Rivelino disparando o míssil de sempre e girando os braços feito doido.
Foi nesse jogo também que vi um daqueles momentos que deixam a gente com a respiração presa e os olhos umedecidos. Pelé foi lançado e o goleiro Mazurkiewicz saiu do gol. Ele fez que ia dar um drible pela esquerda, mas deu um meneio de corpo saindo pelo outro lado. Mazurkiewicz, desesperado, abriu os dois braços, um para pegar Pelé, outro para pegar a bola. Não pegou nada. Pelé girou e bateu de primeira. O zagueiro que vinha correndo para o gol se estatelou no chão. A bola passou a centímetros da trave. Deu um dó que só...
A final da Copa reuniu os dois bicampeões até então: o Brasil, campeão de 1958 e 1962, e a Itália, campeã de 1934 e 1938, que vinha de uma semifinal terrível contra a Alemanha, um 4 a 3 decidido na prorrogação. Seria mais que uma final, seria um desempate, o vencedor levaria definitivamente para casa a taça Jules Rimet.
Eu tinha acabado de passar batom quando o Jiló saiu do banheiro com uma camisa verde, uma calça branca e sapato vermelho. Nunca fui chata com essas coisas, mas naquela hora não me contive: — Uai, você vai assim?
E ele: — Claro, nós vamos torcer pela Itália.
Aquela frase foi como um coice. Ele nem ligou e continuou falando: — A Itália pode não ser uma experiência social perfeita, mas é muito superior ao nosso regime.
— Jiló de Deus, eu também detesto a ditadura, acho que militar tem mais é que ficar no quartel, mas aqui é diferente, é um jogo de futebol!...
— Não, tudo está interligado, cada mínima atitude nossa tem que ter lógica e coerência. Se o Brasil ganhar, os milicos vão se aproveitar; por isso nós vamos torcer pela Itália.
Vocês já sabem que pelo Jiló eu fazia qualquer coisa. Então lá fui eu, com a minha faixa “Viva a revolução!” assistir à final.
O Brasil começou bem, tocando a bola e esperando a hora do bote. A Itália, meio cansada, só assustava nas pontadas de Gigi Riva. De repente, o nosso gol: Rivelino cruzou no segundo pau e Pelé testou firme e colocado no canto de Albertosi. Foi o nosso centésimo gol em copas. Eu fiquei com o grito entalado na garganta. Vigiada pelo Jiló, só disse: — Dá vontade de chorar...
Olha Ele comorando o gol.
Minutos depois a defesa brasileira entrou em pane. Clodoaldo quis fazer uma gracinha e perdeu a bola; os zagueiros ficaram apavorados e Félix saiu mal do gol. Resultado: Boninsegna dominou, girou e empatou. Jiló vibrou muito e me abraçou forte como nos tempos de namoro.
O segundo tempo começou naquela agonia: o Brasil superior, a Itália trancada, até que Gérson desistiu dos lançamentos, tabelas e jogadas ensaiadas. Aí driblou um, driblou outro e bateu de canhota. A bola passou por um monte de gente e foi parar no canto de Albertosi. Eu, com a mão direita em forma de soco, gritei: — Gol...eiro maldito! — E o Jiló só me olhando.
Aquele gol arrebentou a Itália. Eles teriam que sair, expor-se ao nosso ataque, e isso era morte certa. Logo depois, Gérson fez um daqueles lançamentos compridões e colocou a bola na pequena área, na cabeça de Pelé. O Rei, que enxergava tudo, deu um toquinho para o outro lado, onde Jairzinho vinha correndo em disparada. Até hoje não sei como o Furacão da Copa fez aquele gol: se foi com a cintura, com a coxa, com o joelho, com a barriga, com o umbigo... O que sei é que eu fiquei em pé e comecei a sapatear que nem o Tony Tornado. O Jiló, meio assustado, perguntou: — Que foi?
E eu disse: — É que a defesa está de salto alto; assim vamos perder, sô!
Quando chegamos nos minutos finais, o jogo entrou em clima de baile. Uma hora o Clodoaldo abusou e começou a tirar os italianos para dançar: driblou um, dois, três, quatro, e passou, na ponta, para Rivelino. O Garoto do Parque deu um esticão para Jairzinho e este passou para Pelé. Ele, de novo dando uma de garçom, rolou a bola mansinha, mansinha para Carlos Alberto, que não perdoou: mandou uma bomba rente à grama, fazendo a bola estufar as redes. Menino, aquele gol me deixou tão descontrolada, mas tão descontrolada que os meus olhos se encheram de lágrimas e o meu queixo começou a tremer. O Jiló, ao ver o meu estado, falou: — Eu também estou com raiva. Vamos embora.
Sabe o que eu fiz? Peguei a faixa e enfiei na boca do Jiló. Só ficou o “Viva” do lado de fora.
Aí o juiz apitou e, quando vi, estava no meio do campo com um sombrero na cabeça e correndo feito uma doida. Tentei tirar a chuteira do Tostão, dei um tapinha nas costas do Clodoaldo, fiquei gritando na frente do Rivelino, chutei a bunda do Carlos Alberto, abracei o Pelé, dei um beijo na careca do Gérson, carreguei o Félix nos ombros, dancei uma valsa com o Piazza, peguei a meia do Everaldo, dei um banho de água no Brito, sambei com o Jairzinho e, por fim, atravessei o campo de joelhos fazendo o sinal da cruz.
Aquele foi o dia mais feliz da minha vida.
Eu estou em algum lugar nessa foto. É só procurar.
A conquista da Copa do México foi a mais linda de todos os tempos! O Brasil ganhou os seis jogos, fez dezenove gols e deixou na memória do esporte lances antológicos, coisas que a gente não se cansa de rever, como os gols que Pelé não fez, sem falar nas jogadas magníficas e no toque suave, bola de pé para pé, nas gingas e nas combinações inacreditáveis. Nunca uma seleção ganhou uma Copa do Mundo dando tanto destaque à beleza do futebol como aquela de 70. Nem antes nem depois. Meus olhos foram felizes por terem visto aqueles jogos. Aliás, jogos não! Aquelas aulas de história da arte.
O Jiló? Nunca mais vi nem quero ver.
Uma mulher faz tudo por um homem, menos torcer contra a seleção.
Sejamos francas, tudo que nós, mulheres, fazemos, fazemos para impressionar os homens. Pintar o rosto, usar minissaia, bater bolos, emagrecer, engordar, dar salto mortal segurando cálices de cristal, tudo é para impressionar os homens. No meu caso, para impressionar o Jiló.
Me apaixonei por ele num jogo Cruzeiro x Atlético. Lembro como se fosse hoje. Ele estava usando um enorme colar com o símbolo da paz, uma fita laranja na cabeça, calça roxa de boca larga e sapatos plataforma. Seus olhos azuis combinavam com sua camisa do Cruzeiro. Meu coração disparou feito boiada assustada. Quase troco de time.
O jogo terminou 4 a 0 para o Cruzeiro, mas dessa vez eu nem chorei. Só fui até ele e disse:
— Aqui ó, meu nome é Amélia, mas pode me chamar de Mel.
— Prazer, Jiló.
— Jiló, seu time mereceu a vitória. Como perdedora, quero te pagar um pão de queijo e um caldo de cana.
Ele respondeu: — Vamos lá, broto — e aquela frase entrou no meu ouvido como se fosse uma doce melodia, o que prova que, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a música está nos ouvidos de quem ouve. Bom, pão rima com mão, queijo rima com beijo e cana quase rima com cama, de modo que, de rima em rima, uma coisa puxou a outra e assim começou o nosso romance.
Meu carrinho era lindo demais da conta
Dois meses depois, quando estávamos sentados no meu Simca na rua do Amendoim, tomei coragem e pedi a mão dele em casamento. O Jiló me respondeu que antes de aceitar precisava de uma prova de amor. Eu achava mesmo que ele ia dizer aquilo, tanto que tinha posto a minha melhor roupa de baixo:
— Faço o que você quiser, Jiló.
Aí o danado abriu um sorriso e disse:
— Tá bom, então quero um autógrafo dos Beatles.
— Mas eles são ingleses! Por que você não me pede um autógrafo da Wanderléa ou do Erasmo?
— Beatles, Beatles, Beatles! Se você me ama, me traz um autógrafo dos Beatles! — Ele pegou sua bolsa de couro e saiu do carro batendo a porta com força.
Como eu amava o Jiló demais da conta, três dias depois peguei um avião da Panair para a Inglaterra. Pelo menos eu tinha um consolo: veria a Copa do Mundo de 1966. Para minha sorte, o grupo do Brasil jogava justamente em Liverpool.
Gente, eu achava que a gente iria conquistar o tri com um pé nas costas. Mais que isso: com as mãos amarradas e uma venda nos olhos. Nós tínhamos Pelé, Zito, Gérson, Amarildo e, ainda, o velho Garrincha. Quem poderia vencer esse time? Infelizmente essa pergunta tinha uma resposta: os cartolas.
A seleção meteu os pés pelas mãos
Depois do bicampeonato, em 1958 e 1962, o futebol virou negócio de Estado no Brasil, e a CBD foi ficando cada vez mais parecida com o Congresso Nacional, de tanto político que aparecia por lá. O técnico Vicente Feola, o mesmo da Copa da Suécia, não tinha pulso firme e ia aceitando as pressões.
A coisa ficou tão absurda que foram chamados 44 jogadores e formaram-se quatro seleções para o período de testes. Até convocação por engano teve. Alguém falou que na lista tinha que ter um jogador do Corinthians, e indicaram o Ditão, aquele zagueiro; só que a datilógrafa da CBD não sabia o nome completo dele e foi se informar com um jornalista. O rapaz, por engano, deu a ela o nome de outro Ditão, o do Flamengo.
Chegando à Inglaterra, peguei o trem para Liverpool. Lá, me hospedei num hotel de segunda categoria. Talvez de terceira. Ou quarta.
Não parece a Rita Lee?
Mal ajeitei os trens, saí e fui comprar um LP chamado Revolver. Depois fui fazer vigília na frente dos estúdios, esperando a chegada de John, Paul, George e Ringo. Para meu azar, começou a chover. Esperei, esperei e nada. O dia seguinte foi igual ao primeiro, e o terceiro bastante parecido com o segundo.
Fiquei uma semana naquela vida, até que resolvi me dar uma folga e ver a estréia do Brasil. O jogo aconteceu numa tarde fria, contra a Bulgária, um time violento, sem graça e cheio de caras com o nome terminando em “ov”. Se o Jiló fosse búlgaro, ia se chamar Jilov.
O Brasil precisou de dois gols de falta para ganhar: um de Pelé e outro de Garrincha. Tabelinha, jogada mesmo, nadica de nada.
O outro jogo foi dali a três dias, contra a Hungria, que já tinha tomado de três de Portugal. Eu pensei: isso vai ser mais mole que curau.
O time estava bem desfalcado, sem Pelé e Zito. No primeiro tempo a coisa foi parelha, mas nós fizemos um gol. Quem marcou foi meu conterrâneo Tostão. Aí, quando veio o segundo tempo... Menino, que tristeza! Os húngaros corriam muito mais, trocavam passes rápidos, desarmavam com uma facilidade que dava dó. Perdemos de 3 a 1 e ficamos com saldo zero.
Euzinha. Ai que saudade daquela tonta...
No dia seguinte, às cinco da manhã eu já estava na porta do estúdio. Para não ser surpreendida novamente pela chuva, dessa vez peguei de um, um tudo. Fui com duas calças, galochas, uma blusa de lã, um casaco de couro, um sobretudo, uma capa, um chapéu e um guarda-chuva. Pois não é que fez um sol de rachar! E eles, é claro, não deram as caras mais uma vez.
Aí veio o jogo contra Portugal, que tinha vencido suas duas partidas e estava classificado. Surgiu então o boato de que eles iam facilitar as coisas para nós. Bom, é difícil provar essas coisas, mas posso dizer que no começo eles estavam jogando em ritmo de treino; só um deles, um tal de Morais, destoava. Gente, esse aí desceu a lenha no Pelé! Se o boato era verdadeiro, tinham esquecido de avisar o Morais. E também os atacantes deles, porque o jogo terminou 3 a 1. Um vexame: nós, os bicampeões do mundo, não tínhamos nem passado da primeira fase!
Eusébio foi bem bom naquela Copa.
Como o Brasil voltou para casa, resolvi torcer para os nossos irmãos portugueses, que iam continuar jogando em Liverpool. O primeiro adversário deles foi a seleção da Coréia do Norte, que tinha despachado a Itália. Achei que o resultado tinha sido só uma zebra, mas mal o juiz apitou o começo do jogo e os coreanos vieram para cima numa correria danada. Quando olhei para o placar, tive que arregalar os olhos: 3 a 0, gols de Pak-Seung-Jin, Li-Don-Woon e Yang-Sung-Hook. Se o Jiló fosse coreano, ia se chamar de Ji-Loh-Zim.
Se eles continuassem a jogar daquele jeito, acho que ganhariam de 100 a 0, mas os lusos conseguiram um golo, como eles dizem, e aí os orientais amarelaram. Foi então a vez dos portugueses passarem a correr feito doidos e, no fim, viraram o jogo para 5 a 3, com quatro gols de Eusébio. Foi um jogo de arrebentar coração; na minha opinião, o melhor daquela Copa.
Eu continuava indo aos estúdios. Um dia, perguntei ao porteiro se havia alguém gravando. Ele respondeu que sim, que lá estavam quatro rapazes e o conjunto se chamava Be... alguma coisa.
Passei a noite dormindo em frente à porta. Quando foi de manhãzinha, um dos quatro rapazes tropeçou em mim. Mais que depressa me levantei e perguntei:
— Você é o Paul?
— Não.
— John?
— Não.
— George?
— Não.
— Então é aquele... como é o nome mesmo... Bingo?
— Você quer dizer Ringo?
— Isso, Ringo!
— Também não.
— Uai, quem é você?
— Sou Joseph. Ele é Saul, este é Geoffrey e aquele é Django.
Então eles colocaram chapéus com orelhas de cachorro, deram-se as mãos e falaram ao mesmo tempo: — Nós somos os Beagles!
Como consolo, ganhei um chapéu daqueles. Pode uma coisa dessas?
Para esquecer Beagles e Beatles, fui para o hotel e assisti ao videoteipe da semifinal entre Portugal e Inglaterra. Era a primeira vez que se usava videoteipe numa copa, e eu achei demais da conta. O time inglês, além jogar em casa, era bom que só. Tinha Banks, Alan Ball, Hunt, o matador Hurst, Bobby Moore e Bobby Charlton. Se o Jiló fosse inglês, ia se chamar Bobby Jilorton. No fim, vitória suada da Inglaterra por 2 a 1, os dois gols de Bobby Charlton. Na final eles enfrentariam os alemães ocidentais, que tinham vencido a União Soviética também por 2 a 1.
O Hurst não tinha um jeito de Beatle?
Já fazia três dias que eu estava na porta do estúdio, quando um sujeito chamado Pete Best me disse que os Beatles não gravavam ali fazia muito tempo e, que se eu quisesse encontrar um deles, teria que ir a Londres. Ele tentou me convencer que já tinha sido um beatle e até insistiu em me dar um autógrafo. Eu ri na cara dele e saí andando. Quando olhei para trás, o pobre homem estava abraçado a um poste e chorava com uma tristeza de dar dó.
Peguei então o trem para Londres. Para não perder a viagem, comprei um ingresso para a grande final.
Eu era uma das 95 mil pessoas que estavam no estádio de Wembley naquele dia. Como a torcida inglesa não é das mais comportadas, tratei de me sentar no meio de uns padres barbados que estavam por ali.
O jogo foi parelhinho da silva, mas como era diferente do nosso futebol! Não tinha aquele toque estilento, aqueles passes trivelados, aquelas tabelas manhudas, aqueles vai-que-vai-mas-não-vai... Era um estilo vigoroso, cheio de encontrões, com passes retos e muitos cruzamentos na área.
A Inglaterra era um bocadinho melhor e vencia por 2 a 1 até os 44 minutos do segundo tempo, quando, depois de um bate-rebate na pequena área, Weber empatou. Nessa hora, um sujeito de terno amarelo que estava sentado atrás de mim ficou de pé, começou a dançar e cantou com um sotaque estranho: — Olê, olá, o Alemanha está botanda pra quebrar!
A partida foi para a prorrogação e aí aconteceu aquele lance que até hoje dá o que falar. Hurst chutou a bola, que bateu na trave e depois caiu sobre a risca do gol. O estádio inteiro explodiu de alegria e os padres ao meu lado pularam tanto que pareciam macacos. Eu disse para o de óculos redondo: — Não foi gol! Bateu na linha! — Ele só respondeu: — Imagine!
Não entrou, mas valeu.
Já o homem de terno amarelo atrás de mim chorava e gritava — Seus bandidas, suas safados!
Com aquele lance, os jogadores alemães se descontrolaram. No final, a Inglaterra ainda fez mais um gol, Hurst de novo, e levou a taça.
Aí foi uma festa só. Todos abraçavam todos, e os padres, menino!, pulavam que nem pipoca. Foi então que a barba de um deles caiu.
— Uai, gente, mas esse é o Paul! — eu disse a mim mesma, de forma que ninguém escutou. E se aquele padre era o Paul, logo o de óculos só podia ser o John, o narigudo era o Ringo e o de turbante era o George. Eles perceberam que eu os tinha reconhecido e pediram que eu ficasse quieta. Respondi que tudo bem, desde que eles autografassem o meu ingresso.
Os autógrafos dos meninos
Quando cheguei a Belo Horizonte e dei os autógrafos para o Jiló, ele olhou para aquilo meio assim, sem interesse, e guardou o ingresso na gaveta. Eu não entendi nada.
— Uai, mas você não queria os autógrafos dos Beatles?!
— Sabe, Mel, os Beatles são legais, mas meio alienados. A gente tem que dar valor ao que é nosso.
E pôs na vitrola um disco do Geraldo Vandré.
Depois de tanto sofrimento, aquela desfeita... Fiquei possessa! Saí batendo a porta e fui dar um giro na Afonso Pena para espairecer. Na volta, mais calma, dei uma bofetada no Jiló e o pedi em casamento. Dessa vez ele aceitou; só exigiu que nosso primeiro filho se chamasse Fidel.
Eu achei que aquele seria o dia mais feliz de toda a minha vida. Mas não, foi o segundo.
(Para ler o especial do UOL sobre a Copa de 1966, clique aqui)
(Na semana que vem, a Copa de 70 e o último capítulo da história de Mel)
Para os religiosos, a parte mais nobre do ser humano é a alma; para os poetas, o coração. Estão todos errados. A parte mais importante do nosso corpo é o pé. Sem pés, as intenções da alma não seriam realizadas e os poemas do coração nunca chegariam às musas.
E digo mais: assim como as ciganas adivinham o futuro de um homem pela palma da mão, afirmo que é possível conhecer a personalidade, a capacidade profissional e o equilíbrio psicológico de um indivíduo por seus membros inferiores. “Mostra-me teus pés e te direi quem és”, eis o resumo da minha doutrina, que intitulei Podosofia.
Grupo de podosofistas africanos.
Em maio de 1962, eu explicava os fundamentos desse meu sistema para o doutor Paulo Machado de Carvalho. Ele tinha ido à minha sapataria buscar um par de calçados feito especialmente para acomodar seus enormes calos.
Nem exclavil dava jeito nos calos do Dr. Paulo.
Alguns dias depois, numa manhã escura e chuvosa, ele voltou. Estava encharcado mas alegre:
— Chulé, você é um gênio! Com estes sapatos eu posso até dançar!
Então, para tornar realidade suas palavras, ele começou a chapinhar nas poças d’água da calçada como se fosse Gene Kelly. E cantava: — I’m singing in the rain...
Esperei até que ele terminasse e bati discretas palmas. Quando pensei que ele iria embora, fui fulminado por uma pergunta:
— Que acha do Chile, Chulé?
Enxugando o rosto, respondi: — É um país comprido, senhor.
— Não, meu caro, não é isso. Quis saber o que você achava do Chile porque pretendo convidá-lo para integrar a comissão técnica que vai à Copa. Você vai cuidar das chuteiras dos jogadores.
Engoli em seco, fiquei em posição de sentido e bradei: — Se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação, digo ao senhor que vou.
Uma semana depois eu embarcava. Meu irmão mais velho, Frieira, que recentemente tinha perdido tudo no jogo, ficou cuidando da sapataria.
No avião coube-me sentar ao lado de um tipo muito baixo que usava um vistoso chapéu. Apresentei-me:
— Sou Chulé.
— Piolho, às suas ordens.
— Sou podósofo.
— E eu cabeçólogo.
Enquanto cruzávamos as nuvens, começamos um interessante debate. Eu disse que o pé dava rumo ao homem, ele falou que a cabeça estava acima de tudo. Eu disse que pelos calos e joanetes se pode conhecer o caráter de um sujeito, ele falou que pelo crânio e pela caspa podia-se conhecer a alma de um homem.
Não chegamos a nenhum acordo e, quando o avião pousou, despedimo-nos com um frouxo aperto de mão.
Chegando à concentração, comecei a trabalhar com afinco nas chuteiras dos jogadores, deixando cada uma o mais perfeitamente possível amoldada a seu dono. Garrincha me deu muito trabalho, porque até seus pés eram tortos. Fiz uma chuteira mais macia para os passes macios de Didi e, na ponta da chuteira de Vavá, coloquei um revestimento especial, pois ele gostava de dar um bico de vez em quando.
Já Piolho era o barbeiro da seleção e passava o dia aparando o cabelo dos jogadores.
Aimoré Moreira, o novo técnico, foi conservador e manteve a base do esquadrão de 1958. Lá estavam os pés-quentes Gilmar, Djalma Santos, Nílton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo. A única mudança foi feita no miolo de zaga, que passou a ser formado por Mauro e Zózimo.
A turma de 62.
Nossa primeira partida aconteceu no estádio Sausalito, contra o México. Os supersticiosos ficaram tensos, porque em 1950 e em 1954 havíamos estreado contra os mexicanos e aquelas não foram grandes copas para nós.
De fato, começado o jogo, nosso ataque esbarrou na parede mexicana (um dos beques, aliás, se chamava Del Muro). Garrincha e Pelé simplesmente não conseguiam se mexer e lá se foi o primeiro tempo sem gols. Nossa agonia durou até os onze minutos da etapa final, quando Zagallo abriu a contagem. Depois, já mais tranqüilos, fizemos 2 a 0 com Pelé.
No segundo jogo, contra os tchecos, o Brasil sofreu muito e não saiu do 0 a 0. Alguém poderia pensar que foi um placar injusto, com o Brasil sufocando um adversário covarde e retranqueiro. Nada disso. A Tchecoslováquia não só se defendeu bem como trocou passes com inteligência e levou perigo ao gol de Gilmar. Mas isso só foi metade do sofrimento.
A outra metade foi ver Pelé, depois de um chute, levar a mão à coxa e fazer cara de dor. Era uma distensão na virilha. Ele estava fora da Copa.
Nos dias que se seguiram, o preocupado Aimoré Moreira andava de um lado para o outro na concentração. Tinha dúvidas sobre quem seria o substituto do Rei. Vendo que eu e Piolho estávamos por ali à toa, perguntou-nos quem deveria entrar no time.
— Sob a luz da Podosofia, senhor, não há dúvida de que quem deve jogar é Jair da Costa. Seus dedos têm um excelente formato parabólico, o que resulta em precisos arremates e primorosos passes.
Piolho, ajeitando o boné, pigarreou e disse: — Permita-me discordar do nobre colega, mas pelos princípios da Cabeçologia é óbvio que a melhor opção é Mengálvio. Seu crânio oblongo permite que tenha um amplo campo de visão, além de ser ideal para o cabeceio.
Aimoré Moreira sorriu: — Obrigado, vocês acabaram com as minhas dúvidas.
No jogo seguinte, ele escalou Amarildo.
Amarildo olha para mim enquanto amarro suas chuteiras.
A Espanha tinha um timaço e era liderada por dois grandes jogadores, por sinal não-espanhóis: o argentino Di Stefano e o húngaro Puskas. Eles começaram melhor e logo fizeram um gol: Adelardo. A virada parecia impossível, mas no segundo tempo, em dois belos lances de Garrincha, Amarildo fez dois gols. Gols bonitos, em jogadas de velocidade e chutes precisos. Depois do segundo gol, eu disse para Piolho:
— Jair teria feito três.
— E Mengálvio, quatro.
Foi uma vitória dramática, mas serviu para que o Brasil começasse a crescer. Deu-nos aquele alívio de quando tiramos um sapato apertado.
No jogo das quartas-de-final, em Viña del Mar, tivemos pela frente uma medíocre Inglaterra. Foi o jogo mais fácil de toda a Copa. Vencemos por 3 a 1 em outra tarde inspirada de Garrincha. Ele jogou na ponta-direita, caiu pela esquerda e ziguezagueou pelo meio. Fez um gol de cabeça, um de folha-seca e ainda cobrou uma falta com tanta violência que o goleiro precisou rebater e a bola sobrou para Vavá fazer o terceiro.
Mais difícil que os ingleses foram os cachorros. Duas vezes o juiz teve que parar a partida para tirá-los de campo. Na primeira, o inglês Greaves ficou de quatro e foi se aproximando devagarinho até pegá-lo. Com o segundo não teve jeito. Como Garrincha, o cão driblou todos os seus marcadores e depois sumiu por baixo do alambrado.
— Eles nunca pegariam um cachorro com uma cabeça tão oviforme — disse Piolho, que naquele dia usava um chapéu de caubói.
— Pois ele podia ter duas cabeças, que não escaparia se não fossem as quatro patas.
— Humpf!
— Blergh...
Como podem perceber, a Podosofia e a Cabeçologia eram sistemas de pensamento rivais na busca da verdade. E a disputa entre as duas filosofias evoluiu a tal ponto que eu e o senhor Piolho mal nos cumprimentávamos.
A semifinal, contra o Chile, foi realizada no Estádio Nacional de Santiago e vista por setenta mil pessoas, a maior audiência do mundial.
Naquele dia, meu cabeçudo inimigo usava uma cocar de penas. Ele explicou que aquilo era uma relíquia tupinambá feita para dar sorte aos guerreiros. Tirei um pé de coelho do bolso e disse:
— Isso é que dá sorte!
— Não deu para o coelho.
Sem encontrar resposta, cruzei os braços, franzi o cenho e voltei a acompanhar a partida.
Dois chilenos marcavam a perna direita de Garrincha. Por isso ele fez o primeiro gol com a esquerda, logo aos nove minutos. Nessa hora não me contive e exclamei: — Ah, os pés...
Porém, aos 32 minutos, o mesmo Garrincha fez o segundo, para meu azar, de cabeça. Quase pulei no pescoço de Piolho ao ouvi-lo murmurar: — Ah, a cabeça...
Aqui, Garrincha está dizendo para Pelé: "Com essas chuteiras do Chulé, eu vou jogar tão bem que o pessoal nem vai sentir sua falta."
Os donos da casa então vieram com toda a fúria para cima de nós e Toro diminuiu no finzinho do primeiro tempo, enlouquecendo o estádio.
Fúria, porém, não basta para ganhar um jogo. Além disso é preciso ser pé-quente, não meter os pés pelas mãos e não tropeçar nas adversidades.
No segundo tempo, o Brasil manteve os pés no chão e Vavá, logo aos três minutos, completou um cruzamento de Garrincha, marcando 3 a 1. Leonel Sanchez, de pênalti, fez a torcida pensar que ainda dava pé, mas Vavá estufou as redes mais uma vez e chutou para longe as esperanças chilenas.
Nossa alegria só não foi total porque Garrincha, cansado de levar pontapés, confundiu as nádegas do zagueiro Rojas com a bola e foi expulso. Sabíamos que a seleção podia vencer sem Pelé, mas sem Pelé e Garrincha...
Por sorte, ou por causa de um bom trabalho de bastidores, o Tribunal da Fifa não puniu o nosso ponta. Por azar, ou por causa de um vírus, Garrincha pegou uma gripe.
Nosso adversário na final foi a velha Tchecoslováquia, que havia vencido os iugoslavos por 3 a 1. Não era um time fabuloso, mas fazia tudo certinho e, como bem se lembram, era o único adversário que o Brasil não havia conseguido vencer até então.
Naquela altura do campeonato, o clima entre mim e Piolho era de total animosidade, tanto que nos dispusemos a fazer um duelo, não com revólveres, e sim com nossas filosofias. Se o Brasil fizesse mais gols com o pé, ele beijaria meus sapatos e gritaria “Viva a Podosofia!” três vezes.
Caso saíssem mais gols de cabeça, eu usaria a meia de Garrincha como chapéu e sairia gritando pelo campo: “A Cabeçologia é supimpa!”
Enfim, um duelo de sábios.
Como na Copa anterior, o inimigo começou vencendo. Masoput abriu a contagem logo aos catorze minutos. Porém, a estrela de Amarildo brilhou novamente e o empate veio, com os pés, aos dezesseis minutos. Dei um pulo tão grande no banco que bati a cabeça no teto.
Garrincha, com 39 graus de febre, não fazia muita coisa. Mesmo assim, por via das dúvidas, era triplamente marcado, o que ajudava os outros jogadores do ataque a encontrar espaços.
No segundo tempo, Amarildo recebeu a bola na esquerda, driblou o seu marcador e cruzou para Zito, que vinha correndo na direção do segundo pau. Para alegria de Piolho, a testa do nosso volante teve a precisão de um pé e a bola foi parar no fundo das redes.
Um gol de pé e outro de cabeça. Nosso duelo estava empatado.
Então, aos 33 minutos, Djalma Santos fez um cruzamento despretensioso e o goleiro Schroif preparou-se para defender; o sol, porém, atrapalhou sua visão e ele acabou soltando a bola nos pés de Vavá, que usou o bico da chuteira que eu preparara especialmente para ele: 3 a 1.
Éramos bicampeões! E mais: a Podosofia vencera!
Martha Rocha era o apelido de Mauro, o nosso elegante capitão.
Com um sorriso triunfante nos lábios, caminhei até meu antípoda, que estava sentado num canto do gramado, triste e cabisbaixo. Não resistindo à tentação, coloquei meu pé em seu joelho, lustrei a ponta do sapato e disse: — Beije o seu novo mestre.
Ele tirou a cartola lentamente e, quando pensei que fosse receber o seu ósculo, levei uma violenta testada nos testículos. Respondi a covarde agressão com um certeiro pé-de-ouvido. E assim, enquanto os jogadores comemoravam e se abraçavam, nós continuamos nossa luta, ele com cabeçadas, eu com chutes.
Acabamos os dois despedidos. A injustiça sempre perseguiu os filósofos. Foi assim com Sócrates, não seria diferente conosco.
As idéias são como os pés, e os tempos, como os sapatos. Quando elas são maiores que eles, forma-se o calo da injustiça. Um dia, “Mostra-me teus pés e te direi quem és” será uma frase tão famosa quanto “Penso, logo existo” ou “Em time que está ganhando não se mexe”.
(Para ler mais sobre a Copa de 1962, clique aqui.)
Nasci em Aparecida, meus pais conheceram-se numa missa e vim ao mundo num 25 de dezembro, mesmo dia do nascimento de Nosso Senhor. Diante de tais coincidências não é de admirar que me tenham batizado com o nome de Jesus.
Cresci num ambiente religioso e, quando fiz quinze anos, não tive alternativa: entrei para o seminário. Depois de professar votos, fui designado para uma igreja no bairro do Paraíso, em São Paulo.
Certa vez, no remoto ano de 1958, quando era ainda um jovem padre, fiz um sermão tão inspirado que, não fosse eu modesto, teria arrancado lágrimas dos meus próprios olhos.
Acabada a missa, resolvi andar por entre os fiéis para ver se estavam comentando minha pregação. Porém, chegando perto de um grupo, notei que não davam a mínima para o sermão. Seu assunto era outro: uma tal Copa da Suécia. Aquilo deixou-me tão contrariado que, aos berros, comecei a censurá-los:
— Raça de pecadores! Em vez de debater as santas palavras, formam uma roda para comentar assuntos mundanos!
Todos baixaram a cabeça e ficaram calados feito vacas de presépio. Só um deles, um senhor elegante e educado, ousou falar. Seu nome era Paulo Machado de Carvalho e, de vez em quando, ele ia ouvir minhas prédicas e pedir a Deus que curasse seus calos.
Paulo Machado de Carvalho, um homem de ferro.
— Calma, padre, não fizemos por mal. Eu é que puxei o assunto. Acontece que sou o chefe da delegação brasileira de futebol e estava comentando as boas novas da seleção com estes cavalheiros.
Ainda irado, perguntei: — E que boas novas podem ser mais interessantes que as do evangelho?
Ele estava tão animado com seu projeto que realmente começou a explicá-lo:
— Até agora as delegações brasileiras têm sido muito amadoras. Estou planejando levar para a Copa uma equipe que tenha comissão técnica, chefe, supervisor, médico, dentista e até um psicólogo!
De pronto, perguntei:
— Pois tantos cuidados e ninguém para levar a palavra de Deus? Médico, dentista, psicólogo e nem mesmo um coroinha para levantar a fé dos jogadores? O senhor pensa que um atleta é apenas corpo? Pensa que eles não têm alma?
Já estava a caminho de um novo sermão quando ele me interrompeu para dizer que concordava comigo, o que é a pior forma de nos brecar a língua.
— E digo mais: o senhor está tão certo que eu o convido a vir conosco! Com as suas palavras, a taça do mundo é nossa! Com Jesus não há quem possa!
Aquilo me pegou desprevenido e, como não sabia o que responder, falei que teria de conversar com o bispo.
Foi o que fiz no dia seguinte. Era o meu primeiro encontro com aquele santo homem e, por isso, entrei tímido e reverente em seu escritório. Os móveis eram de madeira escura, havia um gigantesco crucifixo atrás de sua cadeira e ao longe podia-se escutar o canto gregoriano entoado pelos frades.
Aproximei-me e, de joelhos, contei a dúvida que me trazia à sua presença.
Ele olhou para o teto por alguns longos segundos e então me respondeu:
— Meu filho, a resposta a todas as perguntas está nas santas palavras. Lembra-te de Corinthians 2, versículos 7 e 8.
Puxei pela memória e citei o trecho da carta de Paulo aos coríntios: — Falamos a sabedoria de Deus, à qual Deus ordenou para nossa glória.
— Eu não disse coríntios, disse Corinthians! Vê o que diz a segunda estrofe, versos 7 e 8: Tu és o orgulho / dos desportistas do Brasil!
Então ele levantou a batina e me mostrou que usava uma camisa daquele time, autografada por um certo Baltazar, que não devia ser o rei mago. E o mais surpreendente é que continuou a cantar o hino enquanto dava rodopios pela santa sala: — Corinthians grande, sempre altaneiro, és do Brasil, o clube mais brasileiro.
Quando finalmente acabou seu número, pôs as mãos em meus ombros, olhou-me nos olhos e disse: — Jesus, se tu perderes essa chance, eu te crucifico!
Três semanas depois eu estava em Uddevalla, na Suécia.
Meu trabalho ali não era dos mais difíceis. Devia apenas dizer algumas palavras aos atletas antes das contendas e dar-lhes a bênção. Para minha surpresa, os jogadores tinham bastante fé e consideravam aquilo muito importante. Quase tanto quanto os filmes de Abbott e Costello, Charles Chaplin e Bob Hope que Carvalhais, o psicólogo, passava para nós.
Garrincha adorava imitar o jeito de andar do Carlitos.
Quando veio o primeiro jogo, inspirei-me numa passagem do livro do profeta Daniel e disse: — Vençamos esses austríacos como Daniel venceu os leões, pois Deus está do nosso lado e não há inimigo que possa enfrentá-Lo.
Eu nunca tinha visto uma partida de futebol ao vivo e confesso que aquilo me deixou embasbacado. Os homens correndo pela grama verde, a bola descrevendo parábolas formidáveis, que divino! E, coincidentemente, onze jogadores para cada lado, o mesmo número de apóstolos de Nosso Senhor (não considerando Judas Iscariotes, é claro).
Os brasileiros venceram com certa facilidade: 3 a 0, dois gols de Mazzola e um de Nílton Santos, que desarmou um inimigo e se mandou para o ataque, enquanto o técnico Feola, ao mesmo tempo que comia um sanduíche, gritava: “Volta, volta!”. Ele não voltou e fez um golaço.
Para o segundo jogo, em Gotemburgo, contra a Inglaterra, reuni os jogado